• Enéas de Camargo: do Canindé à eternidade no futebol brasileiro

 Infância e origem no Canindé

Enéas de Camargo nasceu em São Paulo, no dia 18 de março de 1954, e cresceu no bairro do Canindé, na zona norte da capital paulista, a poucos metros do estádio da Associação Portuguesa de Desportos. Terceiro dos cinco filhos de Arnaldo e Enedina, Enéas teve uma infância simples, mas cercada pelo ambiente esportivo. Desde muito cedo, frequentava a sede social da Portuguesa e demonstrava facilidade para diferentes modalidades, praticando futsal, basquete, natação e até saltos ornamentais.

Foto: Futebol Cards - Ping Pong
Reprodução

O futebol, porém, acabaria se tornando seu verdadeiro caminho. Ainda menino, começou a jogar nas categorias de base da Lusa, mas chegou a abandonar o esporte por um período, trabalhando como office boy. O retorno aconteceu graças à insistência de Nena, técnico das categorias juvenis, que enxergava nele um talento fora do comum.

Início no profissional e ascensão rápida

Em 1972, com apenas 17 anos, Enéas foi profissionalizado e fez sua estreia no time principal da Portuguesa contra o América de São José do Rio Preto. Logo em sua primeira partida, marcou dois gols na vitória por 3 a 2, chamando atenção da torcida e da imprensa.

No começo, sua trajetória não foi totalmente regular. Enéas chegou a ser cogitado para uma possível dispensa, mas sua velocidade, habilidade e facilidade para driblar rapidamente o transformaram em um dos principais jogadores do elenco. Alto, forte fisicamente e muito técnico, era um atacante diferente, capaz de decidir partidas com jogadas individuais.

O auge na Portuguesa e o título de 1973

O grande momento de Enéas veio em 1973, sob o comando do técnico Otto Glória. Foi nesse período que ele se firmou como titular absoluto, vestiu a camisa 8 e passou a ser o principal nome ofensivo da equipe. Naquele Campeonato Paulista, Enéas foi um dos destaques da campanha que terminou com o título estadual da Portuguesa, dividido com o Santos após o famoso erro do árbitro Armando Marques na contagem dos pênaltis.

Mesmo com a polêmica, aquele título entrou para a história como o último grande troféu da Lusa no futebol paulista. Enéas se consolidou como ídolo e passou a ser reconhecido nacionalmente como um dos melhores atacantes de sua geração.

A fama de “dormir em campo”

Apesar do talento, Enéas carregou durante toda a carreira a fama de jogador que “dormia em campo”. Isso acontecia porque ele participava pouco das jogadas quando estava sem a bola, caminhando em certos momentos e aparentando desinteresse. No entanto, quando recebia a bola, era extremamente objetivo, veloz e decisivo.

Ex companheiros costumavam dizer que preferiam Enéas “dormindo” do que muitos outros “acordados”, tamanha era sua capacidade de resolver jogos em poucos toques. Seu estilo era voltado para o gol, driblava em velocidade, protegia bem a bola e tinha ótima finalização.

Números históricos pela Lusa

Entre 1971 e 1980, Enéas disputou 376 partidas pela Portuguesa e marcou 179 gols. Esses números o colocam como o segundo maior artilheiro da história do clube, atrás apenas de Pinga. Além disso, é até hoje o maior goleador da Portuguesa em Campeonatos Brasileiros, com 46 gols.

Esses dados confirmam a importância de Enéas não apenas como ídolo emocional, mas também como um dos jogadores mais eficientes da história do clube.

Passagens pela Seleção Brasileira

Enéas também teve uma trajetória relevante nas seleções brasileiras. Em 1971, foi campeão do Torneio de Cannes, na França, com a Seleção de base. No ano seguinte, fez parte da equipe que conquistou o Pré Olímpico para os Jogos de Munique, embora não tenha sido convocado para disputar as Olimpíadas.

Foto: Seleção Brasileira antes da partida contra a 
Seleção da Romênia, em 1974
associacaoportuguesadesportos.blogspot.com
Reprodução

Na Seleção principal, foi convocado algumas vezes entre 1974 e 1976. Estreou contra o México e depois marcou um gol contra o Paraguai, pela Taça do Atlântico. Apesar disso, nunca conseguiu se firmar e acabou ficando fora das Copas do Mundo de 1974 e 1978, mesmo tendo aparecido em listas preliminares.

A ida para a Europa e o Bologna

Em 1980, após quase uma década defendendo a Portuguesa, Enéas realizou o sonho de jogar no exterior e foi contratado pelo Bologna, da Itália. Ele foi um dos primeiros estrangeiros a atuar no futebol italiano após a reabertura do mercado e também se tornou o primeiro jogador negro da história do clube.

Foto: Enéas no Bologna
footballnews.bloog.it/Reprodução

A expectativa era grande, mas a experiência acabou sendo frustrante. Enéas sofreu com dificuldades de adaptação ao país, ao clima frio e, principalmente, com problemas no joelho. Em duas temporadas, disputou apenas 17 jogos e marcou três gols, números abaixo do que se esperava de um jogador do seu nível.

Udinese e retorno ao Brasil

Após o Bologna, Enéas foi negociado com a Udinese, mas nem chegou a entrar em campo. Preferiu retornar ao Brasil, onde foi contratado pelo Palmeiras como grande reforço para tentar encerrar um longo jejum de títulos do clube.

No Palmeiras, disputou 93 partidas e marcou 28 gols. Embora não tenha sido um desempenho ruim, ficou marcado por lesões, problemas físicos e desentendimentos com a comissão técnica. Seu último jogo pelo clube foi em 1983, contra o Corinthians, na semifinal do Campeonato Paulista.

Fim de carreira e clubes menores

Depois de deixar o Palmeiras, Enéas passou a viver uma fase de declínio na carreira. Atuou por clubes como XV de Piracicaba, Juventude, Desportiva Ferroviária, Atlético Goianiense, Operário de Ponta Grossa e encerrou sua trajetória na Central Brasileira de Cotia, na terceira divisão paulista, onde também exerceu função como dirigente.

Foto: Enéas no XV de Piracicaba
Revista Placar/Reprodução

Em 1986, conquistou seu último título como jogador, sendo campeão capixaba pela Desportiva Ferroviária, marcando inclusive o gol do título.

Vida pessoal e personalidade

Fora dos gramados, Enéas era conhecido como um homem alegre, carismático e muito querido pelos amigos. Gostava de cozinhar, de festas e de estar cercado por pessoas próximas. Foi casado duas vezes: primeiro com Elisabete, com quem teve a filha Renata, e depois com Ana Rosa, mãe de seu filho Rodrigo.

Era extremamente ligado à família e aos filhos, sendo descrito como um pai presente e carinhoso. Apesar de existirem relatos sobre possíveis problemas com álcool e depressão, familiares sempre negaram excessos, afirmando que ele levava uma vida social normal como a maioria dos jogadores da época.

O acidente que mudou tudo

No dia 22 de agosto de 1988, Enéas sofreu um grave acidente de carro na Avenida Cruzeiro do Sul, em São Paulo, quando colidiu com a traseira de um caminhão. O impacto foi violento e ele sofreu traumatismo craniano e uma grave lesão na coluna cervical.

Foto: O Monza de Enéas após o acidente
segundobg.com.br/Reprodução

Foi socorrido e passou por diversos hospitais, permanecendo em coma por quase quatro meses. O caso comoveu ex companheiros, amigos e torcedores, que acompanharam de perto sua luta pela vida.

A morte precoce

No dia 27 de dezembro de 1988, aos 34 anos, Enéas de Camargo faleceu, oficialmente vítima de broncopneumonia. Sua morte encerrou de forma trágica a história de um dos maiores ídolos da Portuguesa e de um jogador que poderia ter alcançado ainda mais no futebol brasileiro e internacional.

Legado e memória

Mesmo com uma carreira interrompida precocemente, Enéas permanece vivo na memória dos torcedores da Portuguesa e dos amantes do futebol. Seus números, seus gols, seu estilo inconfundível e sua ligação com o Canindé fazem dele um personagem eterno da história do esporte nacional.

Mais do que um jogador, Enéas representa uma época do futebol brasileiro em que talento e improviso faziam a diferença. Um craque imperfeito, humano, genial e inesquecível.

Visita ao Túmulo do Ex-jogador Enéas


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Referências

DOS, C. futebolista brasileiro. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/En%C3%A9as_de_Camargo>. Acesso em: 21 jan. 2026.

O nome dele era Enéas: A história do apogeu e da morte do craque da Portuguesa que foi roubado no acidente que o matou. Disponível em: <https://www.uol.com.br/esporte/reportagens-especiais/eneas-o-craque-da-portuguesa/#page1>. Acesso em: 21 jan. 2026.

Enéas - Que fim levou? - Terceiro Tempo. Disponível em: <https://terceirotempo.uol.com.br/que-fim-levou/eneas-ou-eneas-1515>. Acesso em: 21 jan. 2026.

ENÉAS. Disponível em: <https://associacaoportuguesadesportos.blogspot.com/2011/01/eneas.html>. Acesso em: 22 jan. 2026.

TARDESDEPACAEMBU. Enéas… o dorminhoco que nos fazia sonhar. Disponível em: <https://tardesdepacaembu.wordpress.com/2012/11/14/eneas-o-dorminhoco-que-nos-fazia-sonhar/>. Acesso em: 22 jan. 2026. 


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