Ubiraci Rodrigues da Costa, o eterno Biriba, ocupa um lugar único na história do esporte brasileiro. Sua trajetória não é apenas a de um atleta genial, mas a de um menino que encantou o mundo, enfrentou pressões precoces, viveu glórias e frustrações mas transformou sua história em legado. Falar de Biriba é falar de talento, coragem, sensibilidade e amor pelo esporte.
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| Foto: Acervo Pessoal de Biriba/Reprodução |
As origens simples de um fenômeno
Biriba nasceu em São Paulo, no dia 26 de junho de 1945. Filho de Hermínio Rodrigues da Costa, cresceu em um ambiente simples, cercado por trabalho e disciplina. O pai mantinha uma padaria na Vila Maria e, no andar superior, fundou o Sport Clube Beira Mar. Foi ali, entre sacos de farinha e mesas improvisadas, que o garoto teve seus primeiros contatos com o tênis de mesa.
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| Foto: Acervo Pessoal de Biriba/Reprodução |
Desde muito cedo, ficou claro que não se tratava de uma
criança comum. Aos oito anos, Biriba já era campeão paulista juvenil de duplas.
Aos onze, conquistava títulos brasileiros adultos e, aos treze, tornava-se
campeão sul-americano adulto individual. Sua precocidade impressionava até os
mais experientes dirigentes e atletas da época.
O Palmeiras e a formação de um ídolo
Foi defendendo o Palmeiras que Biriba viveu grande parte de sua formação esportiva. O clube tornou-se sua segunda casa, oferecendo estrutura, apoio e oportunidades que foram fundamentais para seu crescimento. Mesmo atuando posteriormente por outros clubes, Biriba sempre fez questão de declarar seu amor e gratidão ao Palmeiras, onde se sentia acolhido e respeitado.
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| Foto: Imagem da Internet/Reprodução |
No clube, não apenas treinava, mas aprendia valores que
carregaria por toda a vida. Disciplina, respeito, espírito competitivo e
humildade foram marcas que o acompanharam dentro e fora das mesas.
1958, o ano em que o Brasil se surpreendeu
O Brasil descobriu Biriba em 1958. Durante as comemorações do cinquentenário da imigração japonesa, dois dos maiores nomes do tênis de mesa mundial vieram ao país para partidas de exibição no Ginásio do Ibirapuera: Toshiaki Tanaka e Ichiro Ogimura, ambos bicampeões mundiais.
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| Biriba entre os campeões japoneses em 1958 Foto: Site Terceiro Tempo/Reprodução |
O que ninguém esperava era que um garoto de apenas 13 anos,
franzino e tímido, fosse roubar a cena. Biriba venceu Tanaka quatro vezes e
derrotou Ogimura em uma partida. O ginásio lotado assistiu, incrédulo, ao
nascimento de um ídolo. A imprensa rapidamente o alçou ao patamar de fenômeno
nacional.
O encontro com Pelé e Maria Esther Bueno
O impacto foi tão grande que A Gazeta Esportiva promoveu um encontro simbólico entre os maiores jovens talentos do esporte brasileiro. Biriba, Pelé e Maria Esther Bueno posaram juntos para uma capa histórica, representando a força do Brasil no cenário esportivo mundial.
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| Foto: A Gazeta Esportiva Ilustrada Reprodução |
Apesar da imagem icônica, Biriba sempre relembrou o episódio com simplicidade. Tímido, pouco conversou com Pelé naquele dia. Ainda assim, aquele registro marcou para sempre a história do esporte nacional.
Pequim, 1961, e o dia que mudou tudo
O auge esportivo de Biriba aconteceu no Campeonato Mundial
de 1961, em Pequim. Com apenas 15 anos, ele enfrentou Rong Guotan, campeão
mundial e maior ídolo esportivo da China, diante de cerca de 15 mil torcedores.
Contra todas as expectativas, Biriba venceu. Um menino brasileiro derrotava o campeão do mundo em sua própria casa e a cena correu o planeta. Após a partida, os próprios chineses o aplaudiram, o cumprimentaram e o reconheceram como um fenômeno.
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| Foto: A Gazeta Esportiva/Reprodução |
Biriba avançou até as oitavas de final, terminando entre os
16 melhores do mundo. Até hoje, o feito permanece como um dos maiores da
história do tênis de mesa brasileiro.
A celebridade precoce e o peso da fama
A vitória em Pequim transformou Biriba em celebridade. Ele passou a frequentar capas de jornais, programas de rádio e eventos oficiais. Recebeu um telegrama do presidente da República, Jânio Quadros, parabenizando-o pelo feito.
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| Foto: Imagem da Internet/Reprodução |
Mas junto com a fama vieram cobranças exageradas. Ainda
adolescente, passou a carregar expectativas irreais. Muitos esperavam que
aquele menino se tornasse campeão mundial, sem considerar sua idade, estrutura
emocional ou o cenário limitado do esporte no Brasil.
Convites internacionais e o conflito com o sistema
O talento excepcional levou Biriba a convites
internacionais, incluindo uma participação com os Harlem Globetrotters,
realizando exibições de tênis de mesa durante apresentações da equipe de
basquete. Era o reconhecimento global de seu talento.
No entanto, ao retornar ao Brasil, veio o choque. O
profissionalismo era proibido e Biriba acabou suspenso pela Confederação. A
falta de incentivo, apoio financeiro e planejamento esportivo minaram suas
perspectivas.
A aposentadoria aos 21 anos
Aos 21 anos, Biriba tomou uma decisão difícil. Encerrar a
carreira competitiva. Sabia que não conseguiria viver do tênis de mesa no
Brasil, sendo assim, optou pelos estudos, formou-se em Economia e Contabilidade e ingressou
na Secretaria da Fazenda.
O afastamento do esporte trouxe um vazio profundo. A fama
havia acabado, os holofotes se apagaram e restou o desafio de se reinventar
como cidadão comum.
A depressão e o processo de reconstrução
Anos depois, Biriba revelou publicamente ter enfrentado
depressão. A pressão precoce, o fim abrupto da carreira e a perda de identidade
esportiva tiveram impacto profundo em sua saúde emocional.
A terapia tornou-se parte fundamental de sua vida. Por
décadas, manteve acompanhamento psicológico, sempre defendendo a importância da
saúde mental, especialmente para atletas jovens.
O retorno às mesas e a era dos veteranos
Cerca de dez anos após se aposentar, Biriba voltou a competir, agora em torneios de veteranos. Durante quase 14 anos, permaneceu invicto no Brasil nessa categoria. Ao todo, acumulou cerca de 400 troféus e 300 medalhas ao longo da vida.
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| Foto: Confederação Brasileira de Tênis de Mesa Reprodução |
Mesmo sem a mesma força física, sua técnica e inteligência de jogo continuavam impressionantes.
A raquete que levou seu nome ao mundo
O reconhecimento internacional se materializou quando a tradicional marca japonesa Butterfly lançou uma raquete com seu nome. O modelo “Biriba” foi vendido em todo o mundo, alcançando números impressionantes e eternizando seu nome na história da modalidade.
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| Foto: Raquete que leva seu nome Reprodução |
O livro, as homenagens e a memória preservada
A história de Biriba ganhou registro definitivo com o lançamento de um livro em sua homenagem, fruto de pesquisa, entrevistas e resgate histórico. O evento de lançamento reuniu familiares, amigos, atletas, crianças e pessoas que testemunharam seus feitos nos anos 1950 e 1960.
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| Lançamento do livro Foto: Arquivo Pessoal Leonardo Cantarelli Reprodução |
Escrito pelo jornalista Leonardo Cantarelli, o livro não conta apenas sua trajetória esportiva, mas revela o homem por trás do ídolo, suas fragilidades, emoções e reflexões sobre a vida.
Além disso, Biriba recebeu homenagens da CBTM, teve seu nome
ligado a etapas do Circuito das Estrelas e foi lembrado em bandeirões e eventos
oficiais.
Um mentor, um educador, um exemplo
Mesmo idoso, Biriba nunca deixou de frequentar clubes, especialmente o Palmeiras, onde orientava jovens atletas, dava conselhos e transmitia valores. Mais do que ensinar técnica, ensinava respeito, disciplina e equilíbrio emocional.
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| Foto: Acervo Pessoal de Biriba/Reprodução |
Para ele, o esporte sempre foi ferramenta de formação
humana.
O adeus e o legado eterno
Biriba faleceu em 25 de setembro de 2025, aos 80 anos, em
São Paulo. Sua morte comoveu o esporte brasileiro, mas sua história permanece
viva.
Biriba não foi apenas um campeão, foi um menino prodígio, um homem sensível, um sobrevivente das pressões do alto rendimento e um guardião da memória do tênis de mesa brasileiro.
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| Biriba amava os animais Foto: Acervo Pessoal de Biriba Reprodução |
Seu legado não está apenas nas vitórias, mas nas pessoas que
inspirou. E enquanto houver uma raquete sendo empunhada por uma criança
sonhadora, o nome Biriba continuará vivo.
Visita ao túmulo do mesatenista Biriba
Referências
Feito de Biriba contra chinês no Mundial de Tênis de Mesa
completa 60 anos - Confederação Brasileira de Tênis de Mesa. Disponível em:
<https://www.cbtm.org.br/noticia/detalhe/98224/feito-de-biriba-contra-chines-no-mundial-de-tenis-de-mesa-completa-60-anos>.
Acesso em: 4 jan. 2026.
Biriba (Ubiraci Costa) - Que fim levou? - Terceiro Tempo.
Disponível em:
<https://terceirotempo.uol.com.br/que-fim-levou/biriba-ubiraci-costa>.
Acesso em: 4 jan. 2026.
NETO, V. F. Ídolo do tênis de mesa do Brasil, Ubiraci
Rodrigues da Costa, o “Biriba”, morre aos 80 anos. Disponível em:
<https://www.olympics.com/pt/noticias/idolo-tenis-de-mesa-brasil-ubiraci-rodrigues-da-costa-biriba-morre-80-anos>.
Acesso em: 4 jan. 2026.
Lenda do tênis de mesa brasileiro, palmeirense Biriba
completa 70 anos. Disponível em:
<https://www.palmeiras.com.br/noticias/esportes/lenda-do-tenis-de-mesa-brasileiro-palmeirense-biriba-completa-70-anos/>.
Acesso em: 4 jan. 2026.
EDGAR. Ele foi comparado a Pelé e Maria Esther e sofreu
com depressão após “sumir”. Disponível em:
<https://www.uol.com.br/esporte/tenis-de-mesa/ultimas-noticias/2019/04/18/ele-foi-comparado-a-pele-e-maria-esther-e-sofreu-com-depressao-apos-sumir.htm>.
Acesso em: 4 jan. 2026.
Remembering Ubiraci "Biriba" Rodrigues da
Costa: A Brazilian Pioneer Who Inspired Generations. Disponível em:
<https://www.ittf.com/2025/09/26/remembering-ubiraci-biriba-rodrigues-da-costa-a-brazilian-pioneer-who-inspired-generations/>.
Acesso em: 5 jan. 2026.
DOS, C. Biriba. Disponível em:
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Biriba>. Acesso em: 5 jan. 2026.
CANTARELLI, L. P. Livro sobre as façanhas de Biriba no
tênis de mesa é lançado! Disponível em: <https://lpcantarelli.blogspot.com/2020/03/livro-sobre-as-facanhas-de-biriba-no.html>.
Acesso em: 5 jan. 2026.











