Poucas trajetórias individuais ajudam a compreender de forma tão profunda os efeitos da ditadura militar brasileira quanto a de Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva. Advogada, ativista dos direitos humanos, defensora dos povos indígenas e referência ética na luta por memória, verdade e justiça, Eunice atravessou décadas de perseguição, silêncio institucional e dor pessoal sem jamais abdicar da dignidade nem da convicção de que a democracia só se sustenta quando encara o próprio passado.
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| Foto: Acervo Pessoal da Família/Reprodução |
Viúva do ex-deputado federal Rubens Paiva, sequestrado,
torturado e assassinado pelo Estado em janeiro de 1971, Eunice tornou-se um dos
símbolos mais fortes da resistência civil ao regime militar. Sua história
ultrapassa o drama familiar e se inscreve na história política do país como
exemplo de enfrentamento persistente à violência de Estado e à política do
esquecimento.
Infância, formação intelectual e vocação para o
pensamento crítico
Eunice Paiva nasceu em São Paulo, em 7 de novembro de 1929,
em uma família de origem italiana. Cresceu no bairro do Brás, em uma comunidade
formada por imigrantes que ajudaram a moldar o perfil urbano e operário da
cidade. Desde cedo, destacou-se pelo gosto pela leitura e pela curiosidade
intelectual, traços que a acompanhariam por toda a vida.
Ainda jovem, mudou-se com a família para o bairro de
Higienópolis. Aos 18 anos, ingressou no curso de Letras da Universidade
Presbiteriana Mackenzie, formando-se com excelência acadêmica. Fluente em
francês e inglês, Eunice construiu uma sólida formação humanista e manteve
amizade com escritores e intelectuais como Lygia Fagundes Telles, Antônio
Calado e Haroldo de Campos, convivência que ampliou sua visão crítica sobre
política, cultura e sociedade.
Casamento, maternidade e o avanço da repressão
Aos 23 anos, Eunice casou-se com o engenheiro Rubens Beyrodt
Paiva. O casal teve cinco filhos, Vera Sílvia, Maria Eliana, Ana Lúcia, Marcelo
Rubens e Maria Beatriz. Rubens seguiu carreira política e foi eleito deputado
federal em 1962 pelo Partido Trabalhista Brasileiro, destacando-se na defesa
das reformas de base e do governo constitucional de João Goulart.
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| Foto: Acervo Pessoal da Família/Reprodução |
Com o golpe militar de 1964, Rubens teve seus direitos
políticos cassados. A família passou a viver sob vigilância constante,
acompanhando a escalada autoritária do regime. Mesmo fora do Parlamento, Rubens
continuou sendo perseguido por sua atuação política e por sua rede de contatos
com exilados e opositores do regime.
Janeiro de 1971, o sequestro e o desaparecimento forçado
Em janeiro de 1971, a violência do Estado atingiu o núcleo
da família Paiva. Militares foram à casa da família no Rio de Janeiro e levaram
Rubens Paiva para prestar depoimento. Ele nunca mais retornou.
No dia seguinte, Eunice e a filha Eliana, então com 15 anos,
também foram presas e conduzidas ao DOI CODI da Tijuca. Eliana permaneceu
detida por 24 horas. Eunice ficou presa por 12 dias, submetida a
interrogatórios, intimidações e ameaças. Durante décadas, o Estado brasileiro
ocultou a verdade sobre o destino de Rubens Paiva. Seu corpo jamais foi
localizado.
O luto transformado em ação política
Após a libertação, Eunice mudou-se com os filhos para
Santos, no litoral paulista. A partir desse momento, iniciou uma profunda
transformação pessoal. A dona de casa tornou-se ativista, e o silêncio imposto
pelo regime deu lugar à exigência pública de respostas.
Documentos do Serviço Nacional de Informações, divulgados em
2013, revelaram que Eunice e seus filhos foram monitorados entre 1971 e 1984.
Mesmo assim, ela persistiu. Articulou-se com outras famílias de mortos e
desaparecidos políticos e passou a denunciar sistematicamente os crimes da
ditadura.
O Direito como instrumento de enfrentamento
Em 1973, Eunice decidiu retomar os estudos e ingressar na
faculdade de Direito. Foi aprovada em diversas instituições e escolheu o
Mackenzie. Formou-se aos 47 anos, conciliando a vida acadêmica com a criação de
cinco filhos, em um contexto ainda marcado pela repressão política.
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| Foto: Eunice Paiva em sua colação de grau Reprodução |
Registrada na Ordem dos Advogados do Brasil em 1979, Eunice
construiu uma carreira pautada pela ética e pelo compromisso com causas
coletivas. O Direito tornou-se para ela uma ferramenta de resistência e
reconstrução democrática.
A luta pelos desaparecidos e a Lei 9.140
Eunice Paiva teve papel central na mobilização nacional pela abertura dos arquivos da ditadura e pelo reconhecimento oficial dos mortos e desaparecidos políticos. Sua atuação foi decisiva para a promulgação da Lei 9.140, em 1995, que reconheceu como mortas pessoas desaparecidas em razão de perseguição política.
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| Foto: Imagem da Internet/Reprodução |
Em 1996, após 25 anos de luta, o Estado brasileiro emitiu o
atestado de óbito de Rubens Paiva. Eunice foi a única familiar de desaparecido
convidada a presenciar a assinatura da lei pelo então presidente Fernando
Henrique Cardoso.
Defesa dos povos indígenas e justiça territorial
Paralelamente, Eunice destacou-se como uma das principais
advogadas da causa indígena no Brasil. Atuou contra a expropriação de terras e
a violência institucional sofrida pelos povos originários.
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| Foto: Eunice Paiva com ativistas e indígenas Privat/Reprodução |
Em 1983, assinou com Manuela Carneiro da Cunha o artigo
Defendam os Pataxós, marco do debate jurídico indígena. Em 1987, fundou o
Instituto de Antropologia e Meio Ambiente, o IAMA, que atuou até 2001. Em 1988,
foi consultora da Assembleia Nacional Constituinte, contribuindo para os
avanços da Constituição na área de direitos indígenas.
Cinema, memória e reconhecimento internacional
A trajetória de Eunice Paiva foi registrada no documentário
Eunice, Clarice, Thereza, de 1978. Em 2015, seu filho Marcelo Rubens Paiva
publicou o livro Ainda Estou Aqui, que serviu de base para o filme homônimo
dirigido por Walter Salles.
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| Foto: Sony Pictures/Reprodução |
Lançado em 2024, o filme alcançou projeção internacional e
venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, levando a história de
Eunice Paiva ao centro do debate global sobre memória, autoritarismo e
democracia.
Morte, homenagens e permanência histórica
Eunice Paiva faleceu em São Paulo, em 13 de dezembro de
2018, após anos convivendo com o Alzheimer. Seu legado, no entanto, permanece
vivo. Em 2024, foi homenageada pela Assembleia Legislativa de São Paulo. Em
2025, deu nome ao Prêmio Eunice Paiva de Defesa da Democracia e recebeu
postumamente a Ordem de Rio Branco.
Eunice Paiva transformou a dor em luta, o silêncio em
denúncia e a memória em compromisso coletivo. Sua vida permanece como advertência
histórica e como farol ético para um país que ainda aprende a lidar com o
próprio passado.
Visita ao Túmulo de Eunice Paiva
DOS, C. advogada e defensora dos direitos humanos brasileira. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Eunice_Paiva>. Acesso em: 12 jan. 2026.
Eunice Paiva – Memorias da Ditadura. Disponível em: <https://memoriasdaditadura.org.br/personagens/eunice-paiva/>.
Conheça a história de Eunice Paiva, que inspirou “Ainda Estou Aqui”, na defesa dos direitos humanos. Disponível em: <https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202503/conheca-a-historia-de-eunice-paiva-que-inspirou-201cainda-estou-aqui201d-na-defesa-dos-direitos-humanos>.
HERZOG, I. V. Morre Eunice Paiva, protagonista na luta contra a ditadura - Instituto Vladimir Herzog. Disponível em: <https://vladimirherzog.org/morre-eunice-paiva-protagonista-na-luta-contra-a-ditadura/>. Acesso em: 12 jan. 2026.
PAIVA, E. Eunice Paiva se registrou na OAB em 1979; veja cadastro da advogada - Migalhas. Disponível em: <https://www.migalhas.com.br/quentes/425643/eunice-paiva-se-registrou-na-oab-em-1979-veja-cadastro-da-advogada>.
Eunice Paiva: a heroína silenciosa que nos faz gritar pela democracia. Disponível em: <https://cnte.org.br/noticias/eunice-paiva-a-heroina-silenciosa-que-nos-faz-gritar-pela-democracia-6634>. Acesso em: 12 jan. 2026.
JÚLIA GIRIO. Quem foi Eunice Paiva, vivida por Fernanda Torres no cinema? Disponível em: <https://www.politize.com.br/eunice-paiva/>. Acesso em: 12 jan. 2026.





