Fernando Faro nasceu em 21 de junho de 1927, em Aracaju, Sergipe. Veio ao mundo em uma família tradicional do interior nordestino, neto de dono de engenho, cercado por histórias, religiosidade e uma estrutura familiar rígida, típica do período. Ainda menino, enfrentou um acontecimento que marcaria profundamente sua vida: a morte do pai, Abílio da Costa Santos, vítima de um acidente durante uma partida de futebol. A perda alterou o rumo da família. A mãe, Maria do Carmo, nunca abandonou o luto, e o silêncio passou a ocupar espaço dentro de casa.
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| Foto: Agência Brasil/Reprodução |
Após deixar Aracaju, a família viveu em Laranjeiras e depois
em Salvador. Essas mudanças ajudaram a formar um jovem observador,
introspectivo, sensível aos detalhes. A experiência precoce com o luto, com a
ausência e com o deslocamento moldou o homem que mais tarde faria do silêncio
uma linguagem televisiva.
De estudante de Direito a jornalista
No final da adolescência, Faro mudou-se para São Paulo com
um plano de estudar Direito. Ingressou na Universidade de São Paulo, na
tradicional Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Era um caminho de
prestígio, seguro, respeitável. Mas não era o que o movia.
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| Foto: tudosobretv.com.br Reprodução |
No terceiro ano, tomou uma decisão que mudaria tudo.
Abandonou o curso e escolheu o jornalismo. Em 1949, começou a trabalhar como
repórter no jornal A Noite. Em seguida, passou pelo Jornal São Paulo. Escrevia
sobre cultura, acompanhava cinema, teatro e música. Já demonstrava um interesse
claro por narrativa e por personagens.
Ali, começou a desenvolver o que seria sua maior ferramenta, a escuta. Faro entendia que contar uma boa história exigia, antes de tudo,
saber ouvir.
A chegada à televisão e os primeiros experimentos
Em 1951, estreou na televisão pela TV Paulista. Atuou como
diretor e roteirista de teleteatros em um período em que tudo ainda era feito
ao vivo, com recursos limitados e muito improviso. A televisão brasileira
estava nascendo, e ele cresceu junto com ela.
Pouco depois, foi convidado por Cassiano Gabus Mendes para
integrar a equipe da TV Tupi. Foi nesse ambiente que recebeu o apelido que o
acompanharia pelo resto da vida: “Baixo”. A explicação era simples. Faro tinha
1,65 de altura e um jeito tranquilo de falar. O apelido, que poderia soar
apenas como brincadeira, virou marca de afeto. Ele próprio passou a chamar
colegas e amigos de baixo e baixa, criando um código íntimo de convivência.
Na Tupi, dirigiu teleteatros, adaptou obras literárias e
começou a se aproximar cada vez mais da música. O país vivia transformações
intensas, e a televisão começava a refletir essa mudança.
A década de 1960 e o encontro com a música brasileira
Os anos 1960 foram decisivos. A música popular brasileira
ganhava novas formas, novas vozes e novas urgências. Faro percebeu que a
televisão precisava acompanhar essa revolução estética.
Criou o programa Móbile, que misturava música, literatura,
poesia concreta e artes visuais. Não havia formato fixo. Cada edição
experimentava algo diferente. Era uma televisão ousada, inquieta, alinhada com
o espírito de seu tempo.
Em 1968, dirigiu Divino, Maravilhoso, exibido pela TV Tupi.
O programa tornou-se símbolo do tropicalismo na televisão. Apresentado por
Caetano Veloso e Gilberto Gil, recebia convidados como Gal Costa e Os Mutantes.
Era vibrante, provocador e, ao mesmo tempo, um gesto de resistência cultural em
plena ditadura militar.
Faro não fazia discursos diretos. Sua atuação era mais
sutil. Ele criava espaços, dava palco. Permitia que a arte falasse.
O nascimento de Ensaio e a criação de uma nova linguagem
Em 1969, nasceu o projeto que definiria sua carreira. O formato era simples e revolucionário. Sem plateia, sem cenário
grandioso e sem o entrevistador em cena.
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| Foto: TV Cultura/Reprodução |
A câmera explorava closes intensos no rosto e nas mãos do
artista. A iluminação era baixa. As perguntas não apareciam no áudio. O público
só ouvia o entrevistado. O silêncio entre uma fala e outra era preservado. O
erro não era cortado. Se o artista desafinava e pedia para voltar, voltava. Mas
o erro ficava registrado. Para Faro, aquilo também era verdade.
Quando o programa foi para a TV Cultura, em 1972, passou a
se chamar MPB Especial por alguns anos. Em 1990, retomou o nome original. Ao
longo de cerca de 700 edições, construiu um dos maiores acervos audiovisuais da
música brasileira.
Os artistas e os registros históricos
Pelo estúdio do “Baixo” passaram nomes fundamentais da cultura nacional. Entre eles, Elis Regina, Chico Buarque, Maria Bethânia, Tom Zé, Paulinho da Viola, Tim Maia, Dominguinhos, Beth Carvalho, Ney Matogrosso, Vinicius de Moraes entre tantos outros.
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| Foto: opopular.com.br/Reprodução |
Muitas dessas entrevistas são registros definitivos. Em
vários casos, são os documentos mais completos que existem sobre determinados
artistas. Faro conseguia extrair relatos íntimos, memórias profundas e
reflexões sobre arte e país.
Ele acreditava que a televisão podia ser um documento
histórico. E tratava cada gravação como patrimônio.
Engajamento cultural e político
Além do trabalho na televisão, Faro dirigiu espetáculos
importantes em momentos decisivos da história brasileira. Participou de eventos
ligados à abertura política, esteve envolvido em shows pelas Diretas Já e
promoveu encontros que reuniram dezenas de artistas em defesa da democracia.
Também idealizou o Projeto Kalunga, levando músicos
brasileiros a Angola em um intercâmbio cultural que reforçava laços históricos
e artísticos. Sua atuação ultrapassava o estúdio. Havia consciência política e
compromisso com a cultura como instrumento de transformação.
Professor, gestor e guardião da memória
Nas décadas seguintes, o “Baixo” também atuou como professor
universitário, compartilhando experiência com novas gerações. Assumiu por um
período a direção do Museu da Imagem e do Som de São Paulo, reafirmando sua
missão de preservar a memória audiovisual brasileira.
Em 2007, ao completar 80 anos, teve sua trajetória celebrada
com o lançamento da biografia Baixo – Fernando Faro, pela Fundação Padre
Anchieta. O título não poderia ser outro. O apelido sintetizava sua identidade
pública e privada.
A despedida e o legado
Mesmo com as mudanças da televisão e a chegada da era
digital, Fernando Faro permaneceu fiel à essência do Ensaio. Continuou à frente
do programa na TV Cultura por décadas, mantendo a mesma delicadeza na condução.
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| Foto: almanakito.wordpress.com Reprodução |
Em janeiro de 2016, foi internado no Hospital Oswaldo Cruz,
em São Paulo. O quadro evoluiu para infecção pulmonar. Fernando Faro nos deixou na
noite de 24 de abril de 2016, aos 88 anos. Foi velado e sepultado no Cemitério
do Araçá.
O “Baixo” deixou três filhos, netas e uma obra que atravessa
gerações. Mais do que um diretor de televisão, foi um documentarista da música
brasileira. Transformou silêncio em linguagem, intimidade em memória e
entrevista em patrimônio cultural.
Em um país que tantas vezes esquece sua própria história,
Fernando Faro fez o contrário. Ele a registrou com cuidado, respeito e
profundidade. E ensinou que ouvir, de verdade, pode ser um ato revolucionário.
Visita ao túmulo de Fernando Faro
Ajude a preservar a história de sua cidade e do nosso país.
Referências
DOS, C. jornalista brasileiro. Disponível em:
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Faro>. Acesso em: 16 fev. 2026.
Fernando Faro, produtor do programa “Ensaio”, morre aos
88 anos. Disponível em:
<https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2016/04/fernando-faro-produtor-do-programa-ensaio-morre-em-sp.html>.
Acesso em: 16 fev. 2026.
DA REDAÇÃO. Morre Fernando Faro, aos 88 anos.
Disponível em:
<https://cultura.uol.com.br/noticias/49_morre-fernando-faro-aos-88-anos.html>.
Acesso em: 16 fev. 2026.
FARO, F. Criador do programa Ensaio, da TV Cultura,
Fernando Faro morre em São Paulo. Disponível em:
<https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-04/infeccao-pulmonar-mata-o-jornalista-fernando-faro>.
Acesso em: 16 fev. 2026.
INSTITUTO ITAÚ CULTURAL. Fernando Faro. Disponível
em:
<https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/10324-fernando-faro>.
Acesso em: 16 fev. 2026.
Fernando Faro. Disponível em:
<https://dicionariompb.com.br/personalidade/fernando-faro/>. Acesso em:
16 fev. 2026.
Reveja entrevistas históricas do programa “Ensaio”,
criado pelo produtor cultural Fernando Faro. Disponível em:
<https://opopular.com.br/magazine/reveja-entrevistas-historicas-do-programa-ensaio-criado-pelo-produtor-cultural-fernando-faro-1.1075300>.
Acesso em: 26 fev. 2026.




