No alto da Serra da Mantiqueira, na zona rural de São Bento do Sapucaí, um museu familiar mantém viva uma tradição que ajudou a construir o Brasil. O Museu do Carro de Boi Quim Costa nasceu do desejo de preservar a história de um ofício quase desaparecido e de homenagear um de seus maiores representantes na região: o mestre carpinteiro e carreiro Joaquim Pereira da Costa, conhecido como Seu Quim Costa.
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| Foto: saobentotur.com.br/Reprodução |
Criado oficialmente em 27 de outubro de 2016, o museu
funciona em um sítio da própria família, no bairro do Quilombo. Mais do que um
espaço expositivo, tornou-se um centro de memória da cultura caipira e do carro
de boi, símbolo de uma época em que o transporte dependia da força animal e da
habilidade artesanal.
A iniciativa partiu da filha de Quim Costa, Maria Bernadete
Costa Prado, ao lado do marido, das filhas e de amigos próximos. A proposta era
clara: não deixar que a história do carro de boi e o legado de Seu Quim se
perdessem com o tempo.
Quem foi Quim Costa
Joaquim Pereira da Costa nasceu em 4 de outubro de 1930 e
faleceu em 13 de março de 2014. Filho de fazendeiro, cresceu na Fazenda Boa
Vista, propriedade da família que, na época, tinha mais de 200 alqueires e
produzia arroz, feijão, milho, fumo e leite.
Desde muito cedo, demonstrou talento e interesse pela carpintaria. Aos oito anos já improvisava pequenos carrinhos de boi com pedaços de madeira. Aprendeu o ofício observando mestres da região e, ainda menino, passou a trabalhar na carpintaria, ajudando também nas atividades da lavoura.
Com o tempo, tornou-se referência na fabricação de carros de boi na região de São Bento do Sapucaí. Seus veículos eram feitos totalmente à mão, com ferramentas manuais, madeira de lei e um cuidado quase obsessivo com os detalhes. Ele não se contentava apenas em montar o carro. Queria ouvir o carro cantar.
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| Foto: Facebook/MuseudocarrodeboiQuimCosta Reprodução |
O canto do carro de boi é o som característico produzido
pelo atrito do eixo de madeira com as rodas. Para muitos, era apenas ruído.
Para Quim, era música. Ele costumava dizer que era carreiro duas vezes, porque
fazia o carro e fazia ele cantar.
Além de fabricar carros de boi, transportava mantimentos,
cereais, lenha, mudanças e tudo o que fosse necessário entre a fazenda e a
cidade. Em uma época anterior aos caminhões, o carro de boi era peça-chave da
economia local.
O carro de boi como símbolo histórico
O carro de boi chegou ao Brasil no período colonial, trazido
pelos portugueses. Durante séculos, foi fundamental para o escoamento da
produção agrícola, abertura de estradas e transporte de materiais para a
construção de igrejas, casarões e cidades inteiras.
No interior paulista e mineiro, especialmente na Serra da
Mantiqueira, o carro de boi marcou profundamente a vida social, religiosa e
econômica. Era meio de transporte, instrumento de trabalho e também presença
constante em festas, romarias e celebrações.
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| Foto: Geraldo Fotografia/Reprodução |
Ao criar o museu, a família de Quim Costa decidiu
transformar essa memória em experiência concreta. O espaço apresenta carros de
boi originais fabricados por ele, ferramentas de carpintaria, maquinários,
objetos pessoais e até a réplica de sua casa.
A criação do museu
O museu foi inaugurado dois anos após a morte de Quim Costa.
A família reuniu o acervo que estava espalhado pelo sítio e organizou o espaço
expositivo no galpão onde funcionava a antiga oficina.
Desde o início, o projeto enfrentou desafios. A manutenção
depende basicamente da família e de colaboradores próximos. O apoio público é
limitado, e a valorização da cultura tradicional nem sempre recebe a atenção
que merece.
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| Foto: Instagram @museu_do_carro_de_boi Reprodução |
Ainda assim, o museu se consolidou como atração turística da
região. Situado em meio à natureza, próximo a trechos históricos por onde
passavam antigos carros de boi, o espaço combina memória, paisagem e vivência
cultural.
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| Foto: saobentotur.com.br/Reprodução |
Além da exposição permanente, o local abriga um tablado para
apresentações de catira e rodas de viola. Parte da madeira utilizada nesse
espaço veio de araucárias plantadas pelo próprio Quim Costa há mais de
cinquenta anos.
Como era feito um carro de boi
Um dos pontos altos da visita é entender como se constrói um
carro de boi. O processo começava com a escolha e o corte da madeira. Troncos
eram serrados manualmente com traçador, uma grande serra operada por duas
pessoas. Depois, as peças eram trabalhadas com machado, serrote, enxó, formão,
trado e arco de pua.
Cada carro é composto por diversas partes, como rodas, eixo,
assoalho, cabeçalho, candião, chedas e arreios. A montagem exigia precisão
milimétrica. Qualquer falha poderia comprometer o equilíbrio, a resistência ou
o som característico do carro.
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| Foto: invinoviajas.com/Reprodução |
As madeiras utilizadas incluíam jacarandá da Bahia, pau pereira, taiúva, óleo vermelho e cabriúva. Para as cangas e peças que prendiam os bois, usavam-se madeiras como café bravo e pessegueiro bravo. Segundo a família, Quim plantava e preservava muitas das árvores que utilizava, cuidando também das nascentes e da mata ciliar do sítio.
Tradições e lendas
Em torno do carro de boi existem histórias e crenças
populares. Uma delas diz que transportar defuntos traz má sorte e faz o carro
deixar de cantar. Quim Costa contava que transportou quase tudo na vida, mas
nunca defuntos.
O universo cultural do mestre não se limitava à carpintaria.
Ele era apaixonado por música sertaneja raiz e participava de rodas de viola,
danças de São Gonçalo e apresentações de catira. O ambiente do museu resgata
essa atmosfera, mostrando que o carro de boi fazia parte de um modo de vida
mais amplo.
O museu como espaço educativo
Desde a inauguração, o museu busca aproximar principalmente
o público escolar. A ideia é apresentar às novas gerações uma realidade
distante da vida urbana contemporânea.
As visitas são monitoradas. Os visitantes percorrem a casa e o galpão, onde estão expostos os carros de boi e as ferramentas originais. O relato é conduzido por familiares que conheceram de perto a trajetória de Quim Costa.
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| Foto: Facebook/MuseudocarrodeboiQuimCosta Reprodução |
Segundo a família, as crianças costumam se encantar com as
histórias e com o tamanho das rodas e da estrutura dos carros. O contato direto
com a madeira, o cheiro da oficina e o som do eixo ajudam a transformar o
aprendizado em experiência sensorial.
Reconhecimento e continuidade
O trabalho de Quim Costa recebeu reconhecimento nacional
após sua morte. Ele foi homenageado no Prêmio Leandro Gomes de Barros de
Culturas Populares, como mestre da cultura popular brasileira, in memoriam.
Parte do legado também continua na família. O genro aprendeu
o ofício e hoje produz miniaturas de carros de boi, além de ferramentas
artesanais. Netos seguiram carreira como marceneiros e carpinteiros. Amigos da
região ainda utilizam carros de boi em desfiles e festas religiosas.
Todos os anos, em 27 de outubro, data de aniversário do
museu, há celebração e desfile de carros de boi, reunindo participantes de
cidades vizinhas, inclusive de Minas Gerais.
Um patrimônio raro
Segundo relatos de gestores do setor turístico paulista, não
há outro museu dedicado exclusivamente ao carro de boi nas estâncias do estado.
Isso faz do espaço em São Bento do Sapucaí uma iniciativa singular.
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| Foto: Instagram @museu_do_carro_de_boi Reprodução |
Em um momento em que a mecanização transformou radicalmente
o campo, o museu cumpre um papel importante ao mostrar que o progresso também
se construiu sobre o trabalho manual e a força animal.
Mais do que saudosismo, o que se encontra ali é um convite à
reflexão sobre identidade, memória e pertencimento.
Serviço
Museu do Carro de Boi Quim Costa
📍 Endereço: Estrada Jandyra da Silva Costa, 234, Bairro do Quilombo, São Bento do Sapucaí, SP
🕘 Funcionamento: Sábados, domingos e feriados, das 10h às 17h
📞 Telefone e WhatsApp: (12) 99762-2966 e (12) 99652-4467 - Fernanda Costa
📌 Entrada: R$ 10,00 por pessoa
📱 Instagram: @museu_do_carro_de_boi
📱 Facebook: MuseudocarrodeboiQuimCosta
Visitas durante a semana devem ser agendadas previamente pelo WhatsApp.
Visitas monitoradas incluem a casa, o galpão com os carros de boi e a antiga oficina de carpintaria.
O museu aceita doações para manutenção do espaço.
Visita ao Museu do Carro de Boi Quim Costa
Ajude a preservar a história de sua cidade e do nosso
país.
Referências
Turismo Paulista - Aprecesp. Disponível em: <https://www.turismopaulista.tur.br/atrativo/154_museu_do_carro_de_boi_quim_costa>. Acesso em: 15 fev. 2026.
VIAJAS, I. V. Museu homenageia o carreiro Quim Costa em São Bento do Sapucaí e vira atração turística na Serra da Mantiqueira – In Vino Viajas. Disponível em: <https://www.invinoviajas.com/museu-homenageia-o-carreiro/>. Acesso em: 15 fev. 2026.
Museu do Carro de Boi Quim Costa • São Bento TUR. Disponível em: <https://saobentotur.com.br/_cultura/museu-do-carro-de-boi-quim-costa/>. Acesso em: 15 fev. 2026.
BENDINI, T. Memorial QUIM COSTA – Onde canta a música do
carro de boi -. Disponível em:
<https://entrementes.com.br/memorial-quim-costa-onde-canta-a-musica-do-carro-de-boi/>.
Acesso em: 15 fev. 2026.







