O Bolinho Caipira de Jacareí é mais do que um simples salgado típico do Vale do Paraíba. A receita, preparada tradicionalmente com farinha de milho branca, polvilho doce e recheio de carne suína, tornou-se um dos maiores símbolos da cultura popular da cidade de Jacareí. Reconhecido oficialmente como Patrimônio Cultural Imaterial do município desde 2010, o quitute carrega uma história marcada pela tradição familiar, pelo trabalho e pela memória afetiva de gerações.
Por trás dessa fama está Ana Rita Alves Gehrke, conhecida
carinhosamente como Dona Nicota, mulher responsável por popularizar a receita e
transformá-la em referência gastronômica regional.
Quem foi Dona Nicota
Ana Rita Alves Gehrke nasceu em 4 de fevereiro de 1892, em
Jacareí. Filha de Felício Alves dos Santos e Júlia Leite dos Santos, cresceu em
meio às tradições culinárias do interior paulista, aprendendo desde cedo
receitas simples feitas com ingredientes típicos da região.
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| Foto: Dona Nicota juju-ano4.blogspot.com/Reprodução |
Na juventude, casou-se com Edouard Roberto Gehrke,
descendente de alemães e comerciante local. O casamento aconteceu em 9 de junho
de 1912, e juntos construíram uma grande família, com sete filhos: Albertina,
Walter, Ruth, Osmar, Gerson, Mirian e Talma.
O início do Botequim do Café
Em 1925, o casal investiu as economias que possuía na compra
de um box no antigo Mercado Municipal de Jacareí. Nascia ali o famoso Botequim
do Café, espaço que se tornaria um ponto tradicional da cidade.
Enquanto Edouard cuidava da parte comercial, Dona Nicota
preparava salgados, doces e quitutes típicos. Entre todas as receitas, uma
começou a chamar atenção dos frequentadores do mercado: o bolinho caipira feito
com massa de farinha de milho branca e recheio de carne suína.
A simplicidade da receita era justamente o grande
diferencial. A massa levava apenas farinha de milho branca, polvilho doce,
cheiro-verde ou alfavaca, sal e água. Segundo a tradição da família, o
verdadeiro bolinho caipira original era recheado com pernil suíno temperado na
vinha d’alho com limão, embora a versão com linguiça tenha se tornado a mais
popular ao longo do tempo.
O “Bolinho do Mercado”
O sucesso foi tão grande que o salgado passou a ser
conhecido popularmente como “Bolinho do Mercado”. Durante décadas, Dona Nicota
trabalhou diariamente fritando bolinhos e atendendo moradores, trabalhadores e
visitantes que passavam pelo Mercado Municipal.
Mesmo após ficar viúva, continuou trabalhando para sustentar
a família. Sua dedicação ajudou a consolidar o bolinho caipira como parte da
identidade cultural de Jacareí e de toda a região do Vale do Paraíba.
Reconhecimento cultural
A importância histórica da receita foi oficialmente
reconhecida em 2010, quando o Bolinho Caipira de Jacareí foi declarado
Patrimônio Cultural e Imaterial do município por meio de lei municipal.
O reconhecimento valorizou não apenas a culinária regional,
mas também a memória coletiva da cidade e o trabalho de Dona Nicota,
considerada a principal responsável pela popularização da iguaria.
Anos depois, um projeto de lei também passou a reconhecer o
Bolinho Caipira de Jacareí como patrimônio cultural imaterial do Estado de São
Paulo.
A tradição continua viva
Dona Nicota faleceu em 6 de dezembro de 1973, aos 81 anos,
em Jacareí. Mesmo décadas após sua morte, sua receita continua presente em
festas juninas, quiosques, mercados e eventos culturais da região.
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| Foto: juju-ano4.blogspot.com/Reprodução |
Hoje, o Bolinho Caipira de Jacareí segue sendo preparado de
maneira tradicional por famílias, cozinheiras e empreendedores locais que
preservam a essência da receita original criada em 1925. Entre os nomes que
mantêm viva essa tradição está Ione Câncio de Oliveira, conhecida como Dona
Ione, reconhecida como Mestra da Cultura Viva de Jacareí. Desde jovem, ela se
dedica ao preparo do bolinho caipira e participa de eventos culturais
representando a culinária tradicional do município.
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| Foto: Dona Ione Arquivo Pessoal |
Além disso, famílias tradicionais do Mercado Municipal de
Jacareí também continuam produzindo o bolinho há várias gerações, preservando o
modo de preparo artesanal que tornou a iguaria um símbolo cultural da cidade.
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| Foto: Jussara, neta da Dona Nicota juju-ano4.blogspot.com/Reprodução |
Mais do que um prato típico, o Bolinho Caipira de Jacareí
representa a história de uma mulher simples que transformou talento, trabalho e
tradição em um dos maiores patrimônios culturais do interior paulista. Uma
herança gastronômica que permanece viva na memória e no paladar da população.
Receita do Bolinho Caipira de Jacareí, original da Dona Nicota:
Ingredientes:
1 prato fundo de farinha de milho branca
1 colher cheia de polvilho (de preferência doce)
1 maço de cheiro verde, predominando alfavaca (o manjericão miúdo)
sal a gosto
Como fazer:
Misturar bem com as mãos, esfarelando, adicionando água natural em temperatura
ambiente até dar ponto para enrolar.
O recheio pode ser lingüiça ou carne de porco picadinha.
O recheio mais pitoresco é com peixe, principalmente
lambari.
Fritar em óleo bem quente.
Créditos da receita: Jussara Gehrke
Visita ao túmulo da Dona Nicota
Ajude a preservar a história de sua cidade e do nosso
país.
Referências:
Bolinho Caipira de Jacareí - tradicional. Disponível
em:
<https://juju-ano4.blogspot.com/2013/07/bolinho-caipira-de-jacarei-tradicional.html>.
Acesso em: 16 jan. 2026.
Dona Ione ensina a fazer tradicional bolinho caipira de
Jacareí; veja passo a passo. Disponível em:
<https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2023/06/06/dona-ione-ensina-a-fazer-tradicional-bolinho-caipira-de-jacarei-veja-passo-a-passo.ghtml>.
Acesso em: 16 jan. 2026.
Memoriall 0269A - DONA NICOTA. Disponível em:
<https://www.memoriall.com.br/0269A>. Acesso em: 16 jan. 2026.
REDAÇÃO. Gastronomia: Jacareí prepara 11a
edição da Feira do Bolinho Caipira. Disponível em:
<https://diariodejacarei.com.br/cidade/jacarei-prepara-11-edicao-da-feira-do-bolinho-caipira>.
Acesso em: 20 maio. 2026.
PRADO, F. R. Bolinho Caipira de Jacareí – Patrimônio
Imaterial da Cidade - Site de Jacareí. Disponível em:
<https://www.sitedejacarei.com.br/bolinho-caipira-de-jacarei-patrimonio-imaterial-da-cidade/>.
Acesso em: 20 maio. 2026.



