Em 11 de fevereiro de 2019, o Brasil recebeu a notícia da morte do jornalista Ricardo Boechat, um dos nomes mais respeitados da imprensa nacional. Ao lado dele estava o piloto de helicóptero Ronaldo Quattrucci, que também perdeu a vida no acidente ocorrido na Rodovia Anhanguera, em São Paulo.
Embora tenha se tornado nacionalmente conhecido em razão daquela tragédia, a trajetória de Ronaldo Quattrucci era muito mais ampla. Ele havia construído uma carreira sólida na aviação, era empresário do setor aeronáutico, pai de dois filhos e carregava uma história familiar profundamente marcada por perdas dolorosas.
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| Foto: Ronaldo Quattrucci Facebook/Reprodução |
Sua vida foi dedicada aos helicópteros e aos céus. No
entanto, o destino acabaria reservando para sua família uma sequência de
acontecimentos trágicos que ainda hoje impressiona pela coincidência e pelo
sofrimento envolvido.
O nascimento e os primeiros anos
Ronaldo Quattrucci nasceu em 24 de junho de 1962, em São
Paulo.
Poucas informações sobre sua infância foram divulgadas
publicamente ao longo dos anos. Ainda assim, pessoas próximas sempre relataram
que ele cresceu em um ambiente familiar unido e que, desde jovem, demonstrava
fascínio pela aviação.
Esse interesse não era exclusivo dele. Seu irmão, Rogério
Quattrucci, compartilhava da mesma paixão. Os dois acabaram construindo suas
vidas em torno do mesmo sonho: tornar-se pilotos de helicóptero.
A ligação entre os irmãos era bastante forte e a profissão
aproximava ainda mais os dois, que encontravam na aviação não apenas uma
carreira, mas uma verdadeira vocação.
A escolha pela aviação
Ao ingressar no setor aeronáutico, Ronaldo começou a
construir uma trajetória marcada pela dedicação e pelo constante
aperfeiçoamento técnico.
Com o passar dos anos, tornou-se um profissional conhecido
entre colegas de profissão pelo comportamento responsável e pela seriedade com
que encarava cada operação aérea.
Segundo entidades ligadas à aviação, ele acumulava quase
vinte anos de experiência no comando de helicópteros e mantinha suas licenças
profissionais em situação regular.
Sua rotina era marcada pela disciplina e pela necessidade de
tomar decisões rápidas e precisas, características essenciais para qualquer
piloto profissional.
O empresário e a criação da RQ Serviços Aéreos
Além da atividade como comandante de aeronaves, Ronaldo
também decidiu empreender.
Fundou a empresa RQ Serviços Aéreos Especializados Ltda.,
criada em março de 2004, e passou a atuar diretamente na prestação de serviços
envolvendo helicópteros.
A empresa oferecia serviços de aerofotografia,
aeroreportagem, aerocinematografia, inspeções aéreas, transporte em eventos e
outras atividades especializadas relacionadas ao setor aeronáutico.
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| Foto: Ronaldo Quattrucci Facebook/Reprodução |
Sua frota era composta por três helicópteros, entre eles o
Bell Helicopter de prefixo PT-HPG, fabricado em 1975, que posteriormente se
envolveria no acidente de 2019.
A aviação era mais do que uma profissão para Ronaldo. Era o
centro de sua vida profissional e um projeto que ele buscou desenvolver também
como empresário.
O homem fora dos hangares
Apesar de trabalhar em um setor de grande responsabilidade,
Ronaldo mantinha uma vida pessoal reservada.
Era pai de Amanda Martinez e Rodrigo Quattrucci, aos quais
era extremamente ligado.
Nas redes sociais e nos depoimentos de familiares, surgiram
diversas homenagens que o descreviam como um pai presente, generoso, honesto e
dedicado à família.
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| Foto: Ronaldo Quattrucci Facebook/Reprodução |
Também era conhecido por sua paixão pelo Palmeiras e por sua
participação em atividades religiosas.
Ronaldo era sócio do Templo Espírita de Umbanda Caboclo
Curima, localizado na zona sul da capital paulista, demonstrando uma forte
ligação com a espiritualidade.
Esses aspectos ajudam a revelar uma faceta menos conhecida
do piloto, mostrando um homem que valorizava os relacionamentos pessoais e
mantinha fortes vínculos familiares.
A primeira grande tragédia da família Quattrucci
Em 15 de maio de 1998, a família sofreu uma perda
devastadora.
Rogério Quattrucci, irmão de Ronaldo e também piloto de
helicóptero, morreu em um acidente aéreo em Santana de Parnaíba, na Grande São
Paulo.
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| Foto: Rogério Quattrucci Imagem da Internet/Reprodução |
A aeronave em que estava colidiu contra um morro, causando a
morte de todos os ocupantes.
Além de Rogério, também perderam a vida os advogados Ricardo
Marques da Cruz, de 25 anos, e Leonardo Marques da Cruz, de 26.
A tragédia deixou marcas profundas em toda a família.
Para Ronaldo, a perda do irmão foi particularmente dolorosa.
Os dois haviam seguido praticamente o mesmo caminho profissional e
compartilhavam a mesma paixão pela aviação.
A mãe dos dois, Philomena Augusto, jamais deixou de
carregar a dor pela perda de Rogério. A tragédia de 1998 se transformou em uma
ferida permanente na história da família.
O último voo
Na manhã de 11 de fevereiro de 2019, Ronaldo decolou de
Campinas pilotando o Bell Helicopter PT-HPG.
A bordo estava o jornalista Ricardo Boechat, que havia
participado de um evento profissional no interior paulista e retornava para a
sede do Grupo Bandeirantes, em São Paulo.
Pouco antes de chegar ao destino, a aeronave apresentou
problemas.
Segundo testemunhas ouvidas posteriormente pelas
investigações, o helicóptero fazia um barulho incomum e parecia tentar uma
descida de emergência.
Momentos depois, a aeronave caiu na Rodovia Anhanguera, nas
proximidades do Rodoanel, atingindo um caminhão que transitava pela via.
A colisão foi seguida de um incêndio.
Ronaldo Quattrucci e Ricardo Boechat morreram no local e o motorista do caminhão sofreu apenas ferimentos leves.
O que apontou a investigação
Em 2020, o relatório final divulgado pelo Centro de
Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos trouxe novas informações
sobre o caso.
Segundo a investigação, houve falha mecânica na aeronave,
além de problemas relacionados ao processo de manutenção.
O relatório apontou que determinadas peças apresentavam
desgaste excessivo e que componentes importantes tinham prazos de substituição
vencidos.
Também foram identificadas inconsistências em registros de
manutenção e dificuldades para determinar completamente as condições
operacionais da aeronave.
Outro ponto destacado foi que a empresa de Ronaldo possuía
autorização para realizar serviços aéreos especializados, mas não estava
certificada para operar serviços de táxi aéreo, modalidade que envolve o
transporte remunerado de passageiros.
As investigações concluíram ainda que Ronaldo tentou
realizar um pouso de emergência após a falha mecânica.
O relatório tem finalidade exclusivamente preventiva e busca
evitar que acidentes semelhantes ocorram novamente, não sendo elaborado para
estabelecer responsabilidade civil ou criminal.
O reconhecimento dos colegas de profissão
Após a tragédia, diversas entidades ligadas à aviação
prestaram homenagens ao piloto.
A Associação Brasileira de Pilotos de Helicóptero destacou
sua experiência profissional e afirmou que o comandante seguiu os procedimentos
de segurança até os últimos instantes de sua vida, tentando preservar os
ocupantes da aeronave.
O Sindicato Nacional dos Aeronautas também lamentou sua
morte.
As manifestações revelaram o respeito que Ronaldo havia
conquistado ao longo de sua carreira na aviação brasileira.
O velório e a despedida
O corpo de Ronaldo Quattrucci foi velado no Cemitério São
Paulo, localizado no bairro de Pinheiros, na Zona Oeste da capital.
Familiares, amigos e pessoas próximas compareceram para
prestar as últimas homenagens.
O sepultamento aconteceu em uma cerimônia reservada, marcada
pela emoção e pelo sentimento de incredulidade diante de uma perda tão
repentina.
As mensagens de apoio recebidas pela família mostraram o
carinho e o respeito que ele havia conquistado durante sua vida profissional e
pessoal.
Mais uma perda em apenas três dias
A família Quattrucci ainda enfrentaria outro momento de
enorme sofrimento.
Três dias após a morte de Ronaldo, faleceu sua mãe,
Philomena Augusto.
Ela enfrentava um câncer em estágio terminal.
Segundo familiares, Philomena não chegou a saber da morte do
filho.
Para poupá-la de um sofrimento ainda maior, os parentes
optaram por não revelar a notícia.
Sua neta, Amanda Martinez, publicou uma emocionante
homenagem afirmando que o pai e a avó partiram praticamente juntos e que agora
estavam ao lado de Rogério, o outro filho de Philomena que havia morrido em um
acidente aéreo décadas antes.
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| Foto: Philomena, Ronaldo e os cães Instagram/Reprodução |
Poucas famílias experimentaram, em tão pouco tempo, uma
sequência de despedidas tão dolorosa.
O legado de Ronaldo Quattrucci
A história de Ronaldo Quattrucci passou a ser lembrada
nacionalmente em razão de um acidente que chocou o país.
Por trás das manchetes, porém, existia a trajetória de um
homem que dedicou praticamente toda a sua vida à aviação, tornou-se empresário
do setor, construiu uma família e buscou transformar em profissão a paixão que
carregava desde a juventude.
Sua biografia também ficou marcada por uma impressionante
sucessão de tragédias familiares envolvendo seu irmão Rogério, sua mãe
Philomena e, por fim, sua própria partida.
Mesmo anos depois, o nome de Ronaldo Quattrucci continua
ligado à memória de um profissional experiente, de um pai dedicado e de uma
família que teve sua história profundamente marcada pela aviação e por perdas
que permanecem vivas na lembrança de todos que acompanharam esses
acontecimentos.
Visita ao túmulo do piloto Ronaldo Quattrucci
Ajude a preservar a história de sua cidade e do nosso
país.
Referências:
DE, C. Corpo de piloto de helicóptero que morreu em
acidente com Boechat é enterrado em SP | G1. Disponível em:
<https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/02/12/corpo-de-piloto-de-helicoptero-que-morreu-em-acidente-com-boechat-e-velado-em-sp.ghtml>.
Acesso em: 23 jun. 2026.
BRASIL, A. Nota sobre o acidente com Ricardo Boechat e
Ronaldo Quattrucci - Aopa Brasil. Disponível em:
<https://aopabrasil.org.br/blog/nota-sobre-o-acidente-com-ricardo-boechat-e-ronaldo-quattrucci/>.
Acesso em: 23 jun. 2026.
REDAÇÃO VEJA. Piloto morto em acidente era
sócio-proprietário de empresa de helicópteros. Disponível em:
<https://veja.abril.com.br/brasil/piloto-morto-em-acidente-era-socio-proprietario-de-empresa-de-helicopteros/>.
Acesso em: 23 jun. 2026.
Diário do Grande ABC. Disponível em:
<https://www.dgabc.com.br/Noticia/3015048/irmao-do-piloto-de-helicoptero-tambem-morreu-em-acidente-com-aeronave-em-1998>.
Acesso em: 23 jun. 2026.
Mãe de piloto que faleceu em acidente com Boechat morre
três dias após o filho. Disponível em:
<https://extra.globo.com/noticias/brasil/mae-de-piloto-que-faleceu-em-acidente-com-boechat-morre-tres-dias-apos-filho-23458463.html>.
Acesso em: 23 jun. 2026.
LEITE, M. Mãe do piloto de helicóptero de Boechat morre
três dias depois do filho. Disponível em:
<https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/02/16/mae-de-piloto-de-helicoptero-de-boechat-morre-tres-dias-depois-do-filho.htm>.
Acesso em: 23 jun. 2026.
R7.COM. Mãe de piloto que levava Boechat morreu 3 dias
depois do acidente. Disponível em:
<https://noticias.r7.com/sao-paulo/mae-de-piloto-que-levava-boechat-morreu-3-dias-depois-do-acidente-29062022/>.
Acesso em: 23 jun. 2026.
LEITE, M. Piloto de helicóptero que levava Boechat já
tinha perdido irmão em acidente. Disponível em:
<https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/02/11/quem-era-o-piloto-do-helicoptero-que-levava-boechat.htm>.
Acesso em: 23 jun. 2026.




