A história do jornalismo brasileiro está profundamente ligada ao nome de Ruy Mesquita. Integrante de uma das famílias mais tradicionais da imprensa nacional, ele dedicou mais de seis décadas de sua vida à atividade jornalística, participando de acontecimentos que ajudaram a moldar o cenário político e social do país.
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Diretor de O Estado de S. Paulo por quase duas décadas e
responsável pela criação do inovador Jornal da Tarde, Ruy Mesquita tornou-se
uma das figuras mais influentes da comunicação brasileira. Sua trajetória
atravessou períodos marcantes da história nacional, incluindo a Era Vargas, a
Revolução Cubana, o Golpe Militar de 1964, a censura durante a ditadura e a
chegada da era digital aos meios de comunicação.
Sua atuação fez dele um personagem respeitado, admirado e
também alvo de debates, mas cuja importância para o jornalismo brasileiro
permanece incontestável.
Origem familiar e infância
Ruy Mesquita nasceu em 16 de abril de 1925, na cidade de São
Paulo. Era filho do jornalista Júlio de Mesquita Filho e de Marina Vieira de
Carvalho Mesquita. Seu avô, Júlio Mesquita, havia fundado em 1875 o jornal O
Estado de S. Paulo, que se tornaria uma das mais importantes publicações do
país.
Desde os primeiros anos de vida, Ruy esteve cercado pelo
ambiente jornalístico. Política, economia, cultura e debates sobre os rumos do
Brasil faziam parte das conversas familiares. O jornal ocupava papel central na
vida dos Mesquita e influenciava diretamente suas atividades e decisões.
Sua infância foi marcada por acontecimentos políticos que
afetaram profundamente sua família. Durante a Revolução Constitucionalista de
1932, O Estado de S. Paulo apoiou o movimento paulista contra o governo de
Getúlio Vargas. Com a derrota dos constitucionalistas, a família enfrentou
perseguições políticas que resultaram em períodos de exílio no exterior.
Ainda criança, Ruy viveu em Portugal e posteriormente na
França. Essa experiência ampliou sua visão de mundo e permitiu contato com
diferentes culturas e realidades políticas, algo que influenciaria fortemente
sua formação intelectual.
Formação acadêmica
Ao retornar ao Brasil, ingressou na tradicional Faculdade de
Direito do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo. Embora tenha
iniciado os estudos jurídicos, acabou abandonando o curso antes da conclusão.
Posteriormente, direcionou sua formação para a área das
Ciências Humanas, estudando na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da USP. Seu interesse por política, história, sociologia e relações
internacionais tornou-se cada vez mais evidente.
Durante a juventude, participou de grupos de discussão e
movimentos estudantis, desenvolvendo um olhar atento para os grandes
acontecimentos políticos nacionais e internacionais.
O início da carreira jornalística
Em 1948, aos 23 anos de idade, iniciou oficialmente sua
trajetória profissional em O Estado de S. Paulo.
Começou como repórter e, ao longo dos anos, passou por
diferentes funções dentro da redação. Trabalhou como redator, editor e
responsável por diversas áreas do jornal.
Seu talento para analisar acontecimentos internacionais fez
com que assumisse a editoria de Internacional, setor que ganhava cada vez mais
importância em meio ao contexto da Guerra Fria.
Naquele período, o mundo vivia profundas transformações.
Estados Unidos e União Soviética disputavam influência global, enquanto
revoluções, conflitos e mudanças de governo aconteciam em diferentes
continentes.
Ruy destacou-se pela capacidade de interpretar esses
acontecimentos e apresentar análises consistentes aos leitores brasileiros.
A entrevista histórica com Fidel Castro
Um dos episódios mais marcantes de sua carreira ocorreu após
a Revolução Cubana de 1959.
Naquele momento, Fidel Castro havia acabado de assumir o
poder em Cuba após a derrubada do governo de Fulgêncio Batista. O mundo inteiro
acompanhava com atenção os rumos do novo regime.
Ruy Mesquita tornou-se o único jornalista brasileiro a
entrevistar Fidel Castro logo após a revolução.
A entrevista teve grande repercussão e colocou o jornalista
em evidência nacional e internacional. O encontro permitiu aos leitores
brasileiros conhecer diretamente as propostas e os objetivos do novo governo
cubano em um momento decisivo para a América Latina.
O episódio consolidou sua reputação como especialista em
política internacional e ampliou ainda mais seu prestígio dentro do jornalismo
brasileiro.
O cenário político e o Golpe de 1964
Durante os anos que antecederam o Golpe Militar de 1964, o
Brasil vivia um período de intensa polarização política.
Assim como diversos setores da sociedade, incluindo
empresários, políticos e parte da imprensa, Ruy Mesquita e sua família apoiaram
inicialmente o movimento que resultou na deposição do presidente João Goulart.
Naquele contexto, muitos acreditavam que a intervenção
militar seria temporária e ajudaria a restaurar a estabilidade institucional do
país.
Entretanto, com o fortalecimento do regime e a adoção de
medidas cada vez mais autoritárias, sua posição começou a mudar.
A suspensão de direitos políticos, a perseguição a
opositores e o aumento da censura provocaram um gradual afastamento entre o
Grupo Estado e os governos militares.
O nascimento do Jornal da Tarde
Em 1966, Ruy Mesquita assumiu um dos projetos mais
importantes de sua carreira: a criação e direção do Jornal da Tarde.
O novo veículo foi concebido para romper padrões
tradicionais do jornalismo brasileiro.
Com linguagem moderna, textos mais criativos e um projeto
gráfico inovador, o jornal rapidamente conquistou espaço entre os leitores.
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| Foto: terceirotempo.uol.com.br Reprodução |
As manchetes diferenciadas, o uso ousado da fotografia e a
valorização da reportagem aprofundada transformaram a publicação em referência
nacional.
O Jornal da Tarde tornou-se uma verdadeira escola de
jornalismo. Diversos profissionais que mais tarde alcançariam destaque na
imprensa brasileira passaram por sua redação.
A publicação revolucionou a forma de produzir notícias no
país e influenciou gerações de jornalistas.
A resistência à censura durante a ditadura
A partir do final da década de 1960, a censura tornou-se uma
realidade constante para os meios de comunicação brasileiros.
O Estado de S. Paulo e o Jornal da Tarde passaram a conviver
com a presença de censores que avaliavam previamente os conteúdos que poderiam
ser publicados.
Diversas reportagens eram vetadas antes de chegar ao
público.
Como forma de protesto, os jornais adotaram uma estratégia
que se tornaria símbolo da resistência à censura.
Nos espaços onde deveriam aparecer matérias proibidas pelo
regime, eram publicados poemas de Luís de Camões, receitas culinárias e textos
literários.
A iniciativa permitia que os leitores percebessem que
determinada informação havia sido censurada pelo governo.
Com o passar dos anos, essa atitude transformou-se em um dos
episódios mais emblemáticos da luta pela liberdade de imprensa no Brasil.
A filosofia de trabalho
Ao longo de sua trajetória, Ruy Mesquita defendeu a ideia de
que o jornalismo deveria servir à sociedade e atuar de forma independente
diante de interesses econômicos e políticos.
Em palestras, entrevistas e discursos, costumava afirmar que
a credibilidade era o maior patrimônio de qualquer veículo de comunicação.
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| Foto: clickpb.com.br/Reprodução |
Também demonstrava preocupação com a crescente influência
dos interesses comerciais sobre a atividade jornalística.
Para ele, a busca pelo lucro não poderia se sobrepor ao
compromisso com a informação de qualidade.
Essa visão influenciou suas decisões editoriais durante
décadas.
O comando do Estadão
Em 1996, após a morte de seu irmão Júlio de Mesquita Neto,
Ruy Mesquita assumiu a direção de O Estado de S. Paulo.
Passou então a ocupar o cargo mais importante dentro do
jornal fundado por seu avô mais de um século antes.
Sua chegada ao comando ocorreu em um momento de profundas
transformações no mercado da comunicação.
A internet começava a alterar os hábitos de consumo de
notícias, enquanto novos desafios econômicos surgiam para os veículos
impressos.
Mesmo diante desse cenário, procurou preservar a identidade
editorial do jornal, mantendo sua tradição de análise política e cobertura
aprofundada dos acontecimentos nacionais e internacionais.
Além da direção do Estadão, participou das decisões
estratégicas do Grupo Estado, que também controlava a Agência Estado, a Rádio
Eldorado e outras empresas do setor de comunicação.
Reconhecimento profissional
Ao longo da carreira, Ruy Mesquita recebeu diversas
homenagens e premiações relacionadas à sua contribuição para o jornalismo
brasileiro.
Era frequentemente convidado para participar de debates
sobre democracia, liberdade de expressão e o papel da imprensa em sociedades
democráticas.
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| Foto: migalhas.com.br/Reprodução |
Seu conhecimento sobre política nacional e internacional
transformou-o em uma referência para jornalistas, estudantes e pesquisadores.
Muitos profissionais da comunicação destacavam sua
capacidade analítica, sua disciplina de trabalho e seu profundo conhecimento
histórico.
Os últimos anos
Mesmo em idade avançada, continuou acompanhando de perto as
atividades do Estadão.
Frequentava regularmente a redação, participava da
elaboração dos editoriais e mantinha intensa rotina de leitura e atualização
sobre os principais acontecimentos do Brasil e do mundo.
Até os últimos anos de vida, permaneceu ativo
intelectualmente e envolvido com as discussões sobre o futuro do jornalismo.
Seu compromisso com a profissão permaneceu inalterado ao
longo de toda a carreira.
A morte de Ruy Mesquita
Em abril de 2013, foi diagnosticado com um câncer na base da
língua.
Internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, passou
por tratamento médico, mas seu estado de saúde se agravou nas semanas
seguintes.
Na noite de 21 de maio de 2013, Ruy Mesquita faleceu aos 88
anos.
A notícia teve ampla repercussão nacional.
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| Foto: Obituário Estadão (Capa)/Reprodução |
Autoridades, jornalistas, empresários e representantes de
diferentes setores manifestaram pesar pela perda de uma das figuras mais
importantes da imprensa brasileira.
O velório ocorreu na residência da família, no bairro do
Pacaembu, em São Paulo. O sepultamento foi realizado no tradicional Cemitério
da Consolação.
Ruy deixou a esposa, Laura Maria Sampaio Lara Mesquita,
quatro filhos, doze netos e um bisneto.
O legado de uma vida dedicada ao jornalismo
Mais de uma década após sua morte, o legado de Ruy Mesquita
continua presente na história da comunicação brasileira.
Sua participação na modernização da imprensa, a criação do
Jornal da Tarde, a atuação no comando do Estadão e a resistência à censura
durante a ditadura militar permanecem como capítulos importantes da história do
jornalismo nacional.
Ao longo de mais de sessenta anos de carreira, acompanhou
transformações políticas, econômicas e sociais que moldaram o Brasil
contemporâneo. Como observador, analista e protagonista de muitos desses
acontecimentos, ajudou a construir parte significativa da história da imprensa
brasileira.
Independentemente das diferentes interpretações sobre suas
posições políticas ao longo da vida, Ruy Mesquita permanece como uma figura
fundamental para compreender a evolução do jornalismo no Brasil. Seu nome
continua associado à defesa da liberdade de imprensa, à busca pela qualidade
editorial e à construção de uma das mais importantes tradições jornalísticas do
país.
Visita ao túmulo do jornalista Ruy Mesquita
Ajude a preservar a história de sua cidade e do nosso
país.
Referências:
Morre jornalista Ruy Mesquita, diretor de O Estado de
S.Paulo - UGT - União Geral dos Trabalhadores. Disponível em:
<https://www.ugt.org.br/Noticias/5322-Morre-jornalista-Ruy-Mesquita>.
Acesso em: 25 jun. 2026.
MESQUITA, R. Falece Ruy Mesquita, diretor de O Estado de
S. Paulo - Migalhas. Disponível em:
<https://www.migalhas.com.br/quentes/178970/falece-ruy-mesquita--diretor-de-o-estado-de-s--paulo>.
Acesso em: 25 jun. 2026.
O legado de Ruy Mesquita – UJS. Disponível em:
<https://ujs.org.br/blog/noticias/o-legado-de-ruy-mesquita/>. Acesso em:
25 jun. 2026.
HESSE, G. Morre, aos 88 anos, Ruy Mesquita, diretor de
“O Estado de S. Paulo” - SJPDF. Disponível em:
<https://www.sjpdf.org.br/noticias-teste/1204-morre-aos-88-anos-ruy-mesquita-diretor-de-o-estado-de-s-paulo>.
Acesso em: 25 jun. 2026.
MACHADO, F. Ruy Mesquita, o último grande “publisher”
brasileiro | Observatório da Imprensa. Disponível em:
<https://www.observatoriodaimprensa.com.br/memoria/ed748-ruy-mesquita-o-ultimo-grande-publisher-brasileiro/>.
Acesso em: 25 jun. 2026.
DOS, C. jornalista brasileiro. Disponível em:
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Rui_Mesquita>. Acesso em: 25 jun. 2026.
MBRTV - Museu Brasileiro de Rádio e Televisão.
Disponível em: <https://www.museudatv.com.br/biografia/ruy-mesquita/>.
Acesso em: 25 jun. 2026.
MENSAGEM, M. Morre Ruy Mesquita, do Estado, aos 88 anos.
Disponível em:
<https://www.meioemensagem.com.br/midia/morre-ruy-mesquita-do-estado-aos-88-anos>.
Acesso em: 25 jun. 2026.
Senadores lamentam morte do jornalista Ruy Mesquita.
Disponível em:
<https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2013/05/22/senadores-lamentam-morte-do-jornalista-ruy-mesquita>.
Acesso em: 25 jun. 2026.




