Seu Nenê: a vida do homem que transformou sua história em patrimônio do samba paulista

Como a trajetória de Seu Nenê se tornou parte da história do carnaval de São Paulo

Alberto Alves da Silva, conhecido por gerações de sambistas como Seu Nenê, nasceu em 24 de julho de 1921, na cidade de Santos Dumont, em Minas Gerais. Décadas mais tarde, seu nome estaria definitivamente ligado à história do samba e do carnaval de São Paulo, especialmente à Zona Leste da capital, onde ajudaria a construir uma das mais tradicionais escolas de samba do país.

Foto: Imagem da Internet/Reprodução

A trajetória de Seu Nenê, entretanto, não pode ser compreendida apenas a partir da fundação da escola que recebeu seu nome. Sua relação com o samba começou muito antes de a Nenê de Vila Matilde existir oficialmente. Ainda no final da década de 1930, já em São Paulo, Alberto Alves da Silva participava de rodas de samba realizadas no Largo do Peixe, na região da Vila Matilde. Naquele período, o samba era uma manifestação essencialmente comunitária, construída nas ruas, nos encontros entre amigos e nas festas populares.

Ao lado do irmão Didi, de Antônio Alves de Almeida, conhecido como Tókio, e de outros sambistas, Seu Nenê fazia parte daquele ambiente de batuques e rodas de samba que reuniam moradores da região. Também estavam presentes nomes como Zaira, Zefá, Aiaia, Cida e Odete, que posteriormente seriam lembradas como algumas das primeiras passistas ligadas à agremiação.

Esses encontros não eram apenas momentos de diversão. Havia ali uma tradição cultural que reunia música, dança, percussão e manifestações populares de origem afro-brasileira. Entre as práticas presentes naquele ambiente estavam as pernadas e a tiririca, manifestações associadas à cultura dos descendentes de africanos e que faziam parte da vida social daqueles grupos.

Foi nesse cenário que começou a nascer a ideia de transformar aquelas rodas de samba em uma organização capaz de participar oficialmente do carnaval. Um dos responsáveis por estimular essa possibilidade foi Tókio, um jovem talentoso da região, que percebeu que aquele grupo poderia fazer mais do que simplesmente se reunir para tocar e cantar.

A ideia, porém, não surgiu de uma hora para outra. Ela foi amadurecendo ao longo dos anos, alimentada pela própria experiência dos sambistas e pelo movimento dos foliões que tomavam as ruas durante o carnaval.

A ideia de criar uma escola de samba

Na virada de 1947 para 1948, um episódio ajudou a aproximar ainda mais Seu Nenê da ideia de criar uma agremiação própria. Na noite de Ano Novo, ele havia tocado em uma orquestra. Depois da apresentação, desceu do trem na Vila Matilde e caminhou até o Largo do Peixe.

Aquela caminhada teria um significado especial porque, naquele momento, a possibilidade de fundar uma escola de samba começava a tomar forma de maneira mais concreta.

A região já possuía uma intensa movimentação durante o carnaval. Muitos moradores saíam às ruas fantasiados para participar da folia, e os sambistas perceberam que havia espaço para organizar uma agremiação que representasse aquela comunidade.

A intenção era reunir oficialmente os integrantes das rodas de samba e dar ao grupo uma identidade própria. O projeto também representava uma maneira de preservar uma manifestação cultural que, naquele período, ainda enfrentava incompreensão e resistência em determinados setores da sociedade.

Seu Nenê assumiu naturalmente uma posição de liderança. Ele era um dos integrantes mais ativos e comunicativos daquele grupo, além de possuir forte ligação com a música e com a cultura popular.

Assim, o que havia começado como encontros de sambistas no Largo do Peixe passou a se transformar em um projeto coletivo.

1º de janeiro de 1949: nasce a Nenê de Vila Matilde

Em 1º de janeiro de 1949, na Rua Joaquim Marra, no Largo do Peixe, Vila Matilde, foi fundado o Grêmio Recreativo Escola de Samba Nenê de Vila Matilde.

A fundação reuniu um grupo de sambistas liderado por Alberto Alves da Silva. Entre os fundadores estavam sua irmã, Geraldina Alves da Silva, além de Balbino de Paula Sodré, Antônio Alves de Almeida, o Tókio, Geraldo Albertino, Júlio Francisco, Juvenal Tomaz e Benedito Alberto da Silva.

A história da escolha do nome da escola se tornou uma das passagens mais curiosas da trajetória da agremiação.

Foto: cn1brasil.com.br/Reprodução

Segundo o relato registrado nas fontes sobre a escola, quando os sambistas foram providenciar o registro da nova entidade, perceberam que haviam cometido um pequeno, mas importante esquecimento. Eles ainda não tinham escolhido o nome que seria colocado nos documentos.

O funcionário responsável pelo registro perguntou qual seria a denominação da escola. O grupo, surpreendentemente, não tinha uma resposta pronta.

Foi então que o funcionário apontou para um dos integrantes, justamente aquele que se destacava pela maneira expansiva, pela comunicação e pela disposição para sambar e batucar. Ao perguntar quem era aquele rapaz que não parava de sambar, recebeu como resposta, Nenê.

A sugestão foi simples e acabou sendo aceita imediatamente. Dessa maneira, o nome de Alberto Alves da Silva passou a identificar também a escola que ele ajudaria a construir durante toda a sua vida.

Antes da consolidação definitiva do nome Nenê de Vila Matilde, a agremiação chegou a ser associada a outras denominações, entre elas 1º de Janeiro e Unidos do Marapés. Esses nomes, entretanto, tiveram existência muito breve, e a denominação Nenê de Vila Matilde acabou prevalecendo.

A escolha acabaria sendo muito mais significativa do que poderia parecer naquele momento. O apelido de um sambista da Zona Leste se transformaria no nome de uma das maiores referências do carnaval paulista.

Os primeiros anos e a consolidação da escola

A Nenê de Vila Matilde estreou no carnaval em 1950. A partir daí, a agremiação começou a construir uma trajetória marcada por pioneirismo, resistência e identificação com a comunidade da Zona Leste.

Seu Nenê permaneceu à frente da escola desde a fundação e assumiu a presidência durante décadas. Sua vida pessoal e a trajetória da agremiação tornaram-se praticamente inseparáveis.

A escola cresceu em um período em que as agremiações de samba de São Paulo ainda buscavam reconhecimento e melhores condições para realizar seus desfiles. Seu Nenê precisou enfrentar dificuldades para manter o grupo unido e garantir que o samba ocupasse seu espaço nas ruas da cidade.

Foto: Seu Nenê, no centro(1967)
Estadão/Reprodução

Um dos registros mais significativos dessa época aparece no documentário “Seu Nenê”, de Carlos Cortez. A produção recuperou lembranças do próprio fundador e apresentou episódios das dificuldades enfrentadas nos primeiros tempos da escola.

Entre os obstáculos estavam as investidas da polícia, que dispersava os sambistas quando a agremiação ainda não possuía uma quadra própria. Também houve resistência de moradores da própria Vila Matilde, a ponto de serem realizados abaixo-assinados contra a escola.

Em vez de abandonar o projeto diante das dificuldades, Seu Nenê continuou insistindo.

Essa persistência foi fundamental para que a Nenê de Vila Matilde sobrevivesse aos primeiros anos e pudesse se transformar em uma instituição cultural de importância muito maior do que seus fundadores provavelmente imaginavam no momento da criação.

O pioneirismo no carnaval paulista

A história de Seu Nenê está diretamente relacionada a algumas das transformações mais importantes do carnaval de São Paulo.

A Nenê de Vila Matilde foi uma das primeiras agremiações paulistas a estruturar sua apresentação a partir de elementos que posteriormente se tornariam fundamentais nos desfiles das escolas de samba.

A escola também é apontada como pioneira na utilização de coreografias e na introdução do enredo nos desfiles paulistas, ainda no começo da década de 1950.

Outro marco atribuído à agremiação é a criação do primeiro samba-enredo da história do carnaval paulista, associado ao tema “Casa Grande e Senzala”. A escolha de temas relacionados à história, à cultura negra e à ancestralidade africana ajudou a construir uma identidade própria para a escola.

Desde os primeiros anos, a Nenê de Vila Matilde passou a destacar em seus desfiles elementos da cultura afro-brasileira. A valorização da negritude, da ancestralidade e das manifestações populares tornou-se parte importante de sua identidade.

Essa característica também contribuiu para fazer da escola um espaço de afirmação cultural. Mais do que uma agremiação carnavalesca, a Nenê passou a representar uma comunidade que encontrava no samba uma maneira de preservar sua memória e reafirmar sua presença na cidade.

A primeira vitória e o crescimento da agremiação

O reconhecimento pelo trabalho desenvolvido veio com a primeira vitória da escola, em 1956.

A conquista marcou uma nova etapa para a Nenê de Vila Matilde. A agremiação, que havia começado em meio às rodas de samba do Largo do Peixe e enfrentado resistência nos primeiros anos, passava a ocupar posição de destaque entre as escolas paulistas.

A partir daquele momento, a escola continuou ampliando sua importância e acumulando títulos e momentos marcantes.

Ao longo das décadas seguintes, a Nenê de Vila Matilde se consolidaria como uma das maiores campeãs do carnaval de São Paulo, chegando a conquistar 11 títulos no Grupo Especial e sendo reconhecida como uma das grandes forças do samba paulista no século XX.

Seu Nenê esteve no centro dessa trajetória durante praticamente todo o período.

A escola crescia, mas o fundador permanecia ligado à rotina da agremiação. Seu nome não estava apenas nos documentos da entidade. Ele fazia parte da identidade da comunidade.

A quadra própria e uma nova fase

Durante a década de 1960, a Nenê de Vila Matilde alcançou outro importante marco, tornando-se a primeira escola de samba paulista a possuir uma quadra coberta própria.

A conquista representava muito mais do que uma melhoria física. Ter um espaço próprio significava garantir um lugar permanente para os ensaios, reuniões, encontros e atividades da comunidade.

A quadra passou a ser uma extensão da própria história de Seu Nenê.

A casa onde ele morou durante muitos anos ficava na mesma rua da quadra da escola. Essa proximidade ajudou a reforçar ainda mais a imagem do fundador como uma figura permanentemente presente no cotidiano da agremiação.

Existem relatos de sambistas segundo os quais, durante determinado período, quando a bateria ensaiava na rua da escola, os ritmistas costumavam passar diante da casa de Seu Nenê. Da janela, o fundador acompanhava a execução e fazia sua avaliação.

A aprovação, segundo esses relatos, nem sempre vinha facilmente. A postura exigente de Seu Nenê fazia com que os batuqueiros procurassem melhorar cada vez mais a qualidade da bateria.

A exigência ajudou a construir uma reputação que a Nenê de Vila Matilde carregaria por décadas. A bateria tornou-se uma das referências do carnaval de São Paulo.

A aproximação com a Portela

Outro capítulo importante da história da escola aconteceu em 10 de janeiro de 1970, quando a Nenê de Vila Matilde foi batizada pela Portela em sua própria quadra.

A relação com a escola carioca teria consequências duradouras. A Portela tornou-se uma espécie de madrinha da agremiação paulista, estabelecendo uma ligação simbólica entre duas comunidades do samba.

Seu Nenê tinha grande admiração pela escola carioca e acabou incorporando à Nenê de Vila Matilde alguns elementos que passaram a fazer parte de sua identidade.

As cores azul e branco foram adotadas depois de uma experiência que o próprio fundador contou diversas vezes.

Ele estava no Teatro Santana, em São Paulo, assistindo a um espetáculo do sambista Paulo Benjamim de Oliveira, quando se encantou com o azul e branco utilizado pelos integrantes. A impressão foi tão forte que decidiu levar aquelas cores para a escola que havia fundado.

A partir daí, o azul e branco se tornaram marcas da Nenê de Vila Matilde.

A águia, outro símbolo associado à Portela, também passou a fazer parte da identidade da escola paulista.

Foto: Imagem da Internet/Reprodução

O vínculo entre as duas agremiações reforçou a tradição da Nenê e ajudou a aproximar ainda mais o carnaval de São Paulo de uma das maiores referências do samba do Rio de Janeiro.

Seu Nenê, o “Cacique” do samba

Com o passar dos anos, Alberto Alves da Silva deixou de ser conhecido apenas como Seu Nenê. Entre os integrantes da escola, ganhou também o tratamento carinhoso de “Cacique”.

A expressão traduzia a posição que ele ocupava dentro da agremiação e no próprio samba paulistano.

Seu Nenê era visto como um dos últimos grandes baluartes do samba tradicional, expressão usada para identificar os fundadores e dirigentes que ajudaram a estruturar as escolas de samba paulistas nas décadas de 1940 e 1950.

Foto: Imagem da Internet/Reprodução

Sua figura era facilmente reconhecida pelo característico chapéu e pelo jeito de falar. Mais importante, porém, era sua presença constante nos acontecimentos da escola.

Durante quase cinco décadas, a Nenê de Vila Matilde teve no mesmo homem seu fundador, presidente e principal referência.

A dedicação de Seu Nenê ultrapassava a função administrativa. Ele acompanhava os ensaios, observava a bateria, participava dos desfiles e mantinha uma relação direta com os integrantes da comunidade.

A escola tornou-se parte de sua própria identidade.

O histórico desfile na Marquês de Sapucaí

Entre os acontecimentos de maior importância na trajetória de Seu Nenê está o desfile realizado no Rio de Janeiro em 1985.

Naquele ano, a Nenê de Vila Matilde havia conquistado o campeonato de São Paulo e recebeu o convite para participar do desfile das campeãs na Marquês de Sapucaí.

A oportunidade representava uma conquista extraordinária para uma escola de samba paulista. Pela primeira vez, uma agremiação de São Paulo participaria daquele momento no sambódromo carioca.

A Nenê foi ao Rio de Janeiro ao lado de grandes escolas como Mocidade Independente e Beija-Flor, respectivamente campeã e vice daquele carnaval.

Seu Nenê comandou a comunidade da Zona Leste naquele momento histórico. A escola levou para a Marquês de Sapucaí a experiência construída ao longo de décadas no Largo do Peixe e nas ruas de Vila Matilde.

O episódio permaneceu como uma das maiores lembranças da vida do fundador.

O desfile também foi incorporado à memória da própria escola. Em 1988, a Nenê apresentou o samba “E o poeta falou: Zona Leste somos nós!!!”, cuja letra fazia referência ao caminho percorrido entre o Largo do Peixe e a Sapucaí.

A frase “do Largo do Peixe à Sapucaí” sintetizava uma trajetória de décadas.

Era a história de uma comunidade que havia começado com rodas de samba em uma região da Zona Leste e chegado a um dos palcos mais importantes do carnaval brasileiro.

O homem por trás da escola

Apesar da projeção alcançada pela Nenê de Vila Matilde, Seu Nenê continuou sendo uma figura profundamente ligada à vida cotidiana da comunidade.

Sua residência permaneceu próxima à quadra da escola, fazendo com que o fundador estivesse literalmente a poucos passos do espaço que ajudara a criar.

Essa proximidade também alimentou histórias contadas pelas gerações de sambistas que passaram pela agremiação.

Seu Nenê acompanhava a evolução da bateria e dos desfiles com atenção. Para muitos integrantes, sua opinião tinha enorme peso porque representava a experiência de alguém que havia vivido praticamente todas as etapas da escola.

A liderança construída por ele não dependia apenas do cargo de presidente. Era resultado de décadas de convivência, dedicação e participação.

Por isso, quando se fala na história da Nenê de Vila Matilde, é praticamente impossível separar a escola de seu fundador.

A agremiação recebeu seu nome, mas foi também o resultado de uma vida inteira dedicada ao samba.

A família e a continuidade da obra

Seu Nenê foi casado e ficou viúvo em 1986. Teve três filhos, entre eles Alberto Alves da Silva Filho, conhecido como Betinho, e Adalberto Alves da Silva.

A família também acompanhou de perto sua dedicação à escola.

Depois de 47 anos à frente da Nenê de Vila Matilde, Seu Nenê transmitiu a presidência em 1996 ao filho Alberto Alves da Silva Filho.

A mudança ocorreu em razão da idade e de problemas de saúde.

Mesmo deixando formalmente o comando da agremiação, Seu Nenê não abandonou a escola.

Continuou participando de seus desfiles sempre que as condições permitiam e manteve sua ligação com a comunidade. De acordo com registros da Velha Guarda da Nenê de Vila Matilde, esteve presente em praticamente todos os desfiles da escola ao longo de sua vida, ausentando-se apenas uma vez por motivo de saúde.

A passagem da presidência para o filho não representou, portanto, o fim de sua participação. Seu Nenê continuou sendo uma referência dentro da agremiação.

Os últimos anos

Nos últimos anos de vida, Seu Nenê enfrentou problemas de saúde que limitaram sua mobilidade e sua participação nas atividades da escola.

Ainda assim, permaneceu cercado pela família e pela comunidade que ajudara a construir.

Uma de suas sobrinhas, Arlete Maria Alves de Souza, cuidou dele durante nove anos. Ela relatou que a relação entre os dois ultrapassava o vínculo familiar, afirmando que Seu Nenê havia sido para ela como um pai.

O fundador da Nenê de Vila Matilde também enfrentava limitações físicas. Segundo familiares, não caminhava devido à artrose e possuía outros problemas de saúde, entre eles um câncer de próstata que estava controlado.

Foto: Imagem da Internet/
Reprodução

Em setembro de 2010, poucas semanas antes de morrer, Seu Nenê recebeu uma das últimas grandes homenagens de sua vida. Foi agraciado com a comenda da Ordem do Ipiranga pelo Governo do Estado de São Paulo.

A homenagem reconhecia a importância de sua trajetória para a cultura popular e para o samba paulista.

Aos 89 anos, ele já era considerado uma das figuras mais importantes da história do carnaval de São Paulo.

A doença e a morte

No fim de setembro de 2010, Seu Nenê começou a apresentar uma tosse seca persistente.

Na quarta-feira, 30 de setembro, durante uma consulta que já estava marcada com seu cardiologista, foram recomendados exames. Depois de realizar um raio X do pulmão, ele foi internado.

Segundo o relato da sobrinha Arlete, inicialmente Seu Nenê permanecia consciente, conversando e se alimentando normalmente. O quadro, porém, se agravou nos dias seguintes.

No domingo, 3 de outubro, apresentou falta de ar e seu estado de saúde piorou.

Na madrugada de segunda-feira, 4 de outubro de 2010, Alberto Alves da Silva morreu aos 89 anos, em decorrência de complicações pulmonares.

A notícia provocou comoção entre as escolas de samba de São Paulo.

A morte de Seu Nenê não era apenas a despedida de um dirigente. Tratava-se do desaparecimento de um dos últimos grandes personagens da geração que ajudou a construir o carnaval paulistano.

Seu filho Adalberto Alves da Silva resumiu a dimensão da perda ao afirmar que o pai havia dedicado grande parte de seus 89 anos ao samba e à cultura popular.

Para ele, a história do carnaval paulista se confundia com a história de Seu Nenê.

O último encontro com a comunidade

O corpo de Seu Nenê foi velado na quadra da escola que ele havia fundado.

A escolha do local tinha um forte significado simbólico. Durante mais de seis décadas, aquele espaço e a rua onde estava localizado haviam feito parte de sua vida.

Familiares, integrantes da Nenê de Vila Matilde e representantes de outras agremiações compareceram para prestar as últimas homenagens.

O velório, inicialmente reservado aos familiares e amigos mais próximos, posteriormente foi aberto à comunidade.

Foto: Juliana Cardilli/G1/Reprodução

Arranjos de flores chegaram à quadra durante toda a tarde. Presidentes e integrantes de outras escolas de samba também compareceram.

Entre os presentes estava Leandro Alves Martins, presidente da Leandro de Itaquera, escola apadrinhada pela Nenê de Vila Matilde.

A presença de representantes de diferentes agremiações mostrou que a influência de Seu Nenê ultrapassava os limites de sua própria escola.

Rivalidades tradicionais do carnaval ficaram em segundo plano diante da despedida de uma figura respeitada por diferentes comunidades do samba.

O enterro foi realizado no Cemitério da Quarta Parada, na Zona Leste de São Paulo.

Foi ali que terminou fisicamente a trajetória de Alberto Alves da Silva.

A história de Seu Nenê, entretanto, estava longe de terminar.

O legado de Seu Nenê

Seu Nenê deixou uma marca que vai muito além dos títulos conquistados pela Nenê de Vila Matilde.

Sua principal obra foi a construção de uma comunidade de samba capaz de atravessar gerações.

Quando fundou a escola em 1949, ele fazia parte de um grupo de sambistas que desejava organizar uma manifestação que já existia nas ruas e nas rodas de samba do Largo do Peixe.

Ao longo das décadas seguintes, transformou aquela iniciativa em uma das instituições mais tradicionais do carnaval paulista.

A Nenê de Vila Matilde passou por mudanças, enfrentou dificuldades, conquistou campeonatos, formou sambistas e se tornou uma referência para a cultura afro-brasileira em São Paulo.

Seu Nenê também ajudou a estabelecer uma ponte entre o samba paulista e outras regiões do país. A relação com a Portela, a participação histórica na Marquês de Sapucaí e a presença da escola em momentos importantes do carnaval brasileiro demonstram a dimensão que sua obra alcançou.

A escola que nasceu no Largo do Peixe tornou-se conhecida nacionalmente.

O homem que começou fazendo rodas de samba na Zona Leste passou a ser reconhecido como um dos grandes baluartes do samba brasileiro.

Uma vida confundida com a história da Nenê

A trajetória de Seu Nenê possui uma característica rara. A sua biografia e a história da instituição que fundou praticamente caminham juntas.

Ele não foi apenas o fundador da Nenê de Vila Matilde. Foi seu presidente durante 47 anos, seu principal representante e uma presença constante nos desfiles.

Mesmo depois de deixar a presidência, continuou ligado à escola.

Essa permanência explica por que seu nome se tornou inseparável da agremiação.

Durante décadas, gerações de sambistas aprenderam a reconhecer naquela figura de chapéu e fala característica um símbolo da tradição do carnaval paulista.

Seu Nenê pertenceu a uma época em que as escolas de samba eram construídas principalmente pela dedicação de seus próprios integrantes. O trabalho era coletivo e muitas vezes realizado em condições difíceis.

A quadra, a bateria, os ensaios, os desfiles e os sambas eram resultado do esforço de pessoas que acreditavam na força da cultura popular.

Seu Nenê foi um desses homens.

Sua liderança foi construída dentro da comunidade, entre batuques, ensaios, desfiles e conversas.

Por isso, sua importância não pode ser medida somente pelo número de títulos da Nenê de Vila Matilde. Seu maior legado está na continuidade de uma tradição.

O reconhecimento depois da morte

Pouco depois de sua morte, a Câmara Municipal de São Paulo realizou uma homenagem póstuma ao fundador da Nenê de Vila Matilde.

A cerimônia ocorreu no contexto da Semana da Consciência Negra e reconheceu sua contribuição para o carnaval paulistano, para o samba e para a cultura afro-brasileira.

A homenagem reuniu representantes de diferentes escolas de samba. Agremiações que normalmente disputavam títulos nos desfiles se encontraram para reverenciar a memória de um homem cuja contribuição era considerada maior do que qualquer rivalidade carnavalesca.

Sambas-enredo históricos foram cantados e integrantes de alas tradicionais participaram das homenagens.

Aquela reunião simbolizou algo que acompanhou a trajetória de Seu Nenê desde os primeiros anos: a capacidade do samba de reunir pessoas em torno de uma memória coletiva.

Do Largo do Peixe à história do Brasil

A trajetória de Seu Nenê pode ser contada a partir de lugares que representam etapas de sua vida.

Começa em Santos Dumont, Minas Gerais, onde Alberto Alves da Silva nasceu em 1921.

Passa pelas ruas de São Paulo e pelas rodas de samba do Largo do Peixe, onde a ideia de uma escola começou a ganhar forma.

Chega à Rua Joaquim Marra, onde, em 1º de janeiro de 1949, foi fundada a Nenê de Vila Matilde.

Segue pelos primeiros desfiles, pelas dificuldades enfrentadas diante da repressão e da resistência de parte dos moradores, pelas primeiras conquistas e pela consolidação da escola.

Passa pela quadra coberta construída na década de 1960, pela aproximação com a Portela e pela adoção das cores azul e branco.

Em 1985, alcança a Marquês de Sapucaí, levando para o Rio de Janeiro o nome da Zona Leste de São Paulo.

Depois, chega aos últimos anos de Seu Nenê, quando a idade e os problemas de saúde fizeram com que ele se afastasse da presidência, mas não da escola.

Finalmente, termina no Cemitério da Quarta Parada, em outubro de 2010.

Entre esses pontos existe uma vida inteira dedicada ao samba.

O homem que permaneceu depois do tempo

Alberto Alves da Silva morreu aos 89 anos, mas Seu Nenê permaneceu.

Permaneceu no nome da escola que fundou, nas histórias contadas pelos sambistas, nos desfiles que ajudou a construir e na memória da Zona Leste.

Permaneceu na bateria que tantas vezes acompanhou de perto, nos sambas que atravessaram décadas e na tradição de uma agremiação que continua representando uma comunidade.

Permaneceu também na memória de quem o conheceu como presidente, amigo, conselheiro, orientador, familiar ou simplesmente como o homem que dedicou sua vida ao carnaval.

Foto: Imagem da Internet/Reprodução

Sua história mostra que grandes transformações culturais nem sempre começam em grandes palcos. Muitas vezes, elas nascem em lugares simples, em rodas de samba, nas ruas de um bairro, entre amigos que decidem transformar uma paixão em uma instituição.

Foi assim que começou a história da Nenê de Vila Matilde.

E foi assim que começou também a trajetória de Seu Nenê como um dos personagens mais importantes do samba paulista.

Aos poucos, o Largo do Peixe tornou-se o ponto de partida de uma história que chegaria à Marquês de Sapucaí e ultrapassaria as fronteiras de São Paulo.

Seu Nenê construiu uma escola de samba, mas sua obra acabou sendo maior do que uma agremiação.

Ele ajudou a construir memória.

Ajudou a preservar uma tradição.

Ajudou a dar visibilidade à cultura negra e ao samba produzido na periferia paulistana.

E ajudou a mostrar que o carnaval também é história, identidade e pertencimento.

A memória de um sambista imortal

Entre os sambistas, Seu Nenê recebeu diferentes formas de reconhecimento. Foi fundador, presidente, Cacique, baluarte e referência.

Mas talvez a definição mais importante seja justamente aquela que surgiu depois de sua morte: a de um homem cuja presença continuou sendo sentida mesmo quando ele já não estava fisicamente na quadra.

A Nenê de Vila Matilde havia sido fundada por ele, mas já pertencia a muitas gerações.

Essa é uma das maiores realizações de sua vida.

Uma obra realmente duradoura deixa de depender exclusivamente de seu criador. Ela passa a ser continuada por outras pessoas, que incorporam seus valores e preservam sua memória.

Foi isso que aconteceu com a Nenê.

Seu Nenê transmitiu o comando da escola ao filho em 1996, mas não deixou de ser a figura central de sua história. Quando morreu, em 2010, já havia deixado uma estrutura capaz de continuar existindo sem sua presença física.

O homem partiu, mas a escola ficou.

Ficaram o azul e o branco.

Ficou a águia.

Ficou a bateria.

Ficaram os sambas.

Ficaram os desfiles.

Ficou o Largo do Peixe como símbolo de origem.

E ficou, sobretudo, o nome Seu Nenê, associado para sempre à história do carnaval de São Paulo.

Uma história que atravessa gerações

Mais de seis décadas separaram a fundação da Nenê de Vila Matilde da morte de seu fundador.

Nesse intervalo, o carnaval brasileiro mudou profundamente. As escolas cresceram, os desfiles ganharam estruturas maiores, os sambódromos passaram a receber multidões e o carnaval tornou-se uma das maiores manifestações culturais do país.

Foto: Futura Press/Reprodução

Seu Nenê acompanhou boa parte dessa transformação.

Ele viu o samba sair das rodas de bairro e ganhar grandes avenidas.

Viu a escola que ajudou a fundar conquistar títulos.

Viu a Nenê construir sua própria quadra.

Viu sua agremiação ser batizada pela Portela.

Viu a escola atravessar a fronteira entre São Paulo e Rio de Janeiro para desfilar na Marquês de Sapucaí.

Viu o filho assumir a presidência.

Recebeu homenagens oficiais.

E, no fim da vida, viu sua própria história se transformar em patrimônio da comunidade que ajudou a criar.

Seu Nenê morreu em 4 de outubro de 2010, mas sua trajetória continua sendo lembrada porque está incorporada à própria história do samba paulistano.

Sua vida não foi marcada apenas por um grande momento. Foi construída ao longo de décadas de dedicação.

Foi feita de rodas de samba, ensaios, desfiles, reuniões, dificuldades, conquistas e encontros.

Foi uma vida inteira de resistência cultural.

Por isso, quando a história da Nenê de Vila Matilde é contada, Seu Nenê inevitavelmente aparece no centro dela.

E quando a trajetória de Seu Nenê é lembrada, a escola que leva seu nome surge como a principal testemunha de sua existência.

Entre o nascimento em Santos Dumont, em 1921, e a morte em São Paulo, em 2010, Alberto Alves da Silva percorreu um caminho que o transformou de sambista da comunidade em uma das maiores referências do carnaval paulista.

Seu nome ficou gravado na história.

E, enquanto houver samba na Zona Leste, enquanto a Nenê de Vila Matilde entrar na avenida e enquanto novas gerações continuarem contando como aquela escola nasceu no Largo do Peixe, a memória de Seu Nenê continuará viva.

Porque algumas pessoas deixam lembranças.

Outras deixam obras.

Seu Nenê deixou uma história inteira para o samba.

Visita ao túmulo do Seu Nenê de Vila Matilde


Ajude a preservar a história de sua cidade e do nosso país.

Referências:

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Alma Preta. Disponível em: <https://almapreta.com.br/sessao/cultura/tradicao-e-pioneirismo-nene-de-vila-matilde-completa-76-anos-neste-1o-de-janeiro/>. Acesso em: 19 aug. 2026.

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