Clodovil Hernandes: a vida do estilista que conquistou a moda, a televisão e a política

De menino adotado no interior de São Paulo a um dos personagens mais conhecidos e controversos do país, Clodovil Hernandes construiu uma trajetória marcada pela moda, pela televisão, pelas artes e pela política

Clodovil Hernandes foi uma das personalidades mais singulares da história recente do Brasil. Estilista, costureiro, figurinista, ator, apresentador de televisão e deputado federal, ele transitou por diferentes ambientes sem abandonar sua personalidade forte, uma característica que se tornou sua marca registrada.

Foto: Cida Souza/Veja SP/Capa 2201/
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Ao longo de mais de cinco décadas de vida pública, Clodovil esteve entre os nomes responsáveis pela consolidação da moda de ateliê no Brasil, conquistou fama nacional na televisão e terminou a carreira ocupando uma cadeira no Congresso Nacional. Entre o sucesso e as controvérsias, acumulou admiradores, desafetos, prêmios, processos e episódios que ajudaram a transformar seu nome em sinônimo de irreverência.

Sua história começou longe dos grandes centros, em uma pequena cidade do interior paulista, e terminou em Brasília, em 2009, quando morreu aos 71 anos depois de sofrer um acidente vascular cerebral. Entre esses dois extremos, houve uma trajetória marcada por talento, ambição, dificuldades pessoais, grandes conquistas e inúmeras contradições.

O nascimento e a infância no interior de São Paulo

Clodovir Hernandes, nome que aparece em seu registro de nascimento, nasceu em 17 de junho de 1937, em Elisiário, no interior de São Paulo. A grafia pela qual ficou conhecido, Clodovil, seria adotada posteriormente. Na época de seu nascimento, Elisiário ainda era distrito de Catanduva e só se tornaria município décadas depois.

Ainda bebê, ele foi adotado informalmente pelo casal de imigrantes espanhóis Domingo Hernández e Isabel Sánchez. A família não tinha grandes recursos, mas os pais adotivos fizeram questão de proporcionar ao menino uma boa educação.

A infância foi marcada por mudanças. A família passou por Catanduva, Floreal e, mais tarde, São José do Rio Preto. Em Floreal, Domingo manteve uma loja de tecidos, enquanto Isabel trabalhava com costura e confeccionava vestidos de noiva. Foi nesse ambiente que Clodovil teve os primeiros contatos com o universo que mais tarde se transformaria em sua profissão.

Desde criança, demonstrava interesse incomum pelas roupas. Observava os tecidos, os cortes e os modelos e costumava dar opiniões sobre o vestuário de sua mãe, tias e primas. Também fazia desenhos de vestidos em cartolinas e cadernos. O talento apareceu antes mesmo de existir qualquer formação profissional relacionada à moda.

A relação com o pai, porém, era mais complicada. Segundo relatos atribuídos ao próprio Clodovil, Domingo não compreendia seu comportamento e seu interesse por atividades que, naquele período, eram vistas como incompatíveis com aquilo que se esperava de um menino. Ainda assim, o pai defendia que a principal herança que poderia deixar ao filho seria a educação.

A descoberta da adoção e os anos de formação

Por volta dos 11 anos, Clodovil descobriu que havia sido adotado. A revelação veio por intermédio de uma tia. Segundo seus próprios relatos, o fato não provocou uma ruptura com a família, e ele continuou vivendo ao lado dos pais adotivos.

A educação teve papel importante na formação do futuro estilista. Clodovil estudou em um colégio interno católico em Monte Aprazível, onde também começou a chamar atenção por seus desenhos. Seus cadernos eram preenchidos com croquis de vestidos, e um dos padres teria lhe dado o apelido de Jacques Fath, comparando o jovem ao famoso costureiro francês.

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O período escolar também esteve ligado a experiências difíceis relatadas posteriormente por Clodovil. Em entrevistas ao longo da vida, ele afirmou ter sofrido abuso sexual cometido por um padre durante a juventude. Mesmo ao falar sobre esse episódio, dizia não ter abandonado sua ligação com a religião ou com a educação católica recebida.

Na adolescência, sua identidade e sua sexualidade também começaram a se tornar questões presentes em sua vida. Anos mais tarde, Clodovil falaria publicamente sobre ser homossexual, algo que ajudou a construir sua imagem pública, especialmente em uma época em que a televisão brasileira ainda oferecia pouco espaço para pessoas que assumissem abertamente uma identidade homossexual.

O primeiro desenho e a descoberta de uma profissão

Apesar de sonhar com a moda, Clodovil chegou a seguir inicialmente outro caminho. Formou-se professor na Escola Normal, em São Paulo, e chegou a trabalhar como professor de desenho no Paraná.

A experiência, entretanto, durou pouco. Sua verdadeira vocação continuava sendo a criação de roupas.

Ainda adolescente, uma colega percebeu sua habilidade e perguntou por que ele não desenhava vestidos profissionalmente. Clodovil criou onze modelos para a Florence Modas. Segundo seu relato, apenas um dos desenhos foi comprado e os outros teriam sido copiados pela loja. Mesmo com a frustração, a experiência serviu para mostrar que seus desenhos tinham valor comercial.

Um acontecimento ainda mais importante veio em 1954, quando participou de um concurso de desenhos promovido pela Revista Radiolândia. A competição buscava escolher um traje especialmente criado para a cantora Marlene. Clodovil venceu o concurso, teve seu desenho publicado e recebeu elogios pelo trabalho.

Para o jovem estilista, aquela vitória teve um significado especial. Ele percebeu que a moda poderia deixar de ser apenas uma paixão para se transformar em profissão. A partir daquele momento, São Paulo passou a representar o destino que precisava alcançar.

A mudança para São Paulo

Em 1957, aos 20 anos, Clodovil mudou-se para São Paulo decidido a construir uma carreira na moda. A cidade era um dos principais centros econômicos e culturais do país e concentrava lojas, ateliês, artistas e uma elite interessada em novidades vindas da Europa.

Seu início profissional não foi fácil. Ele trabalhou na Scarlett Modas, onde teve contato com clientes da alta sociedade e com as tendências que chegavam ao Brasil. Depois, passou pela Signorinella, uma importante casa de alta-costura instalada em Higienópolis.

Foi durante esse período que seu talento começou a receber reconhecimento formal. Em 1960, conquistou o Prêmio Agulha de Ouro, e em 1961 recebeu a Agulha de Platina. As premiações ajudaram a colocar seu nome entre os principais criadores da moda brasileira.

Clodovil ainda era jovem, mas já havia percebido que precisava construir uma identidade própria. Em uma época na qual a elite brasileira tinha forte preferência por modelos europeus, especialmente franceses, ele passou a trabalhar com a proposta de uma moda sofisticada produzida no Brasil.

O nascimento do estilista famoso

A década de 1960 marcou a transformação de Clodovil em um nome conhecido nos círculos da alta sociedade paulista. Seu ateliê passou a receber mulheres ricas, artistas e personalidades influentes.

Entre as clientes e figuras ligadas ao seu trabalho estavam a cantora Elis Regina, a atriz Cacilda Becker e integrantes das famílias Diniz e Matarazzo. Seus vestidos de noiva também conquistaram grande procura, incluindo o modelo utilizado por Cleonice Rossi, conhecida como Nice, primeira esposa do cantor Roberto Carlos, em 1968.

Foto: Arquivo Pessoal de Clodovil/
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Clodovil tinha uma visão muito particular da elegância. Valorizava roupas formais, acabamento cuidadoso, tecidos de qualidade e uma estética sofisticada. O trabalho de seu ateliê ajudou a consolidar no Brasil uma produção de roupas exclusivas assinadas por estilistas nacionais.

Além da alta-costura de ateliê, ele também se aventurou pelo prêt-à-porter, modalidade que permitia levar a assinatura de um estilista para peças produzidas em maior escala. Também passou a trabalhar como figurinista para cinema, teatro e televisão.

A moda, entretanto, não era apenas uma profissão para Clodovil. Ela fazia parte da própria maneira como ele enxergava o mundo. Para ele, vestir-se era uma forma de expressão, e sua preocupação com elegância se estendia ao comportamento, à postura e aos modos.

A rivalidade com Dener e a Guerra das Tesouras

Ao mesmo tempo em que Clodovil crescia profissionalmente, outro nome ganhava destaque na moda brasileira: Dener Pamplona de Abreu. Os dois tinham estilos fortes, personalidades marcantes e grande presença na imprensa.

A relação entre eles se transformou em uma das maiores rivalidades da história da moda brasileira. Clodovil e Dener trocavam provocações, críticas e apelidos nos jornais e revistas. A imprensa passou a acompanhar cada novo capítulo da disputa, transformando os dois estilistas em protagonistas de uma espécie de duelo permanente.

A rivalidade chegou a ser chamada de Guerra das Tesouras. Dener e Clodovil, porém, posteriormente admitiram que a disputa também tinha um componente estratégico. As provocações ajudavam a manter os dois em evidência e funcionavam como uma forma de publicidade em uma época em que as colunas sociais tinham enorme influência.

Apesar das brigas públicas, os dois pertenciam a uma mesma geração de criadores que ajudou a estabelecer a moda brasileira em um período no qual o país ainda dependia fortemente das referências estrangeiras.

Clodovil chegou a reconhecer a importância da personalidade de Dener, mesmo quando criticava seu trabalho. A rivalidade acabou se tornando parte da própria história dos dois e, anos depois, seria lembrada como uma das possíveis inspirações para a novela Ti-Ti-Ti.

Moda, cinema, teatro e outras artes

A carreira de Clodovil não ficou restrita aos ateliês. Ele tinha interesse por diferentes formas de expressão artística e passou a trabalhar também como figurinista e ator.

Entre seus trabalhos estão produções para cinema, televisão e teatro. Participou de filmes como O Corpo Ardente, de 1966, Lua de Mel e Amendoim, de 1971, e A Paranóia, de 1976. Também esteve ligado a produções teatrais e criou figurinos para espetáculos.

Sua participação em Lua de Mel e Amendoim foi especialmente significativa porque, além de contribuir com os figurinos, Clodovil também atuou como ator, interpretando um costureiro.

No teatro, continuou desenvolvendo projetos ao longo dos anos. Em 1981, esteve ligado ao espetáculo Seda Pura e Alfinetadas e, em 1987, à peça Sabe quem dançou?. Décadas depois, já no fim de sua carreira, escreveria e participaria do espetáculo autobiográfico Eu & Ela, apresentado em 2006.

Essa multiplicidade ajudou a formar a imagem de Clodovil como um artista completo. Ele desenhava, costurava, atuava, cantava, apresentava programas e gostava de participar de diferentes projetos criativos.

A chegada à televisão

Antes de se tornar apresentador, Clodovil já havia aparecido em programas de televisão e participado de produções artísticas. Em 1976, ganhou destaque ao vencer o programa de perguntas 8 ou 800?, da Rede Globo. Em 1979, participou da novela Marron-Glacé, interpretando a si mesmo.

A televisão, contudo, ainda estava prestes a se tornar o principal palco de sua carreira.

Em 1980, Clodovil estreou no TV Mulher, da Rede Globo, programa que se tornaria um dos grandes marcos da televisão brasileira daquele período. Seu quadro era dedicado à moda, mas sua participação ia muito além de simplesmente apresentar roupas.

Clodovil desenhava vestidos, comentava tendências, respondia cartas de telespectadoras e dava conselhos sobre como se vestir. Seu estilo direto e seu humor ácido rapidamente conquistaram o público.

O sucesso do quadro também esteve relacionado à maneira como ele tratava a moda. Clodovil percebeu que precisava falar com mulheres que não necessariamente tinham dinheiro para comprar roupas de grife. Por isso, também dava sugestões sobre como reaproveitar peças antigas e montar combinações elegantes com o que já existia no guarda-roupa.

A televisão ampliou enormemente seu alcance. O homem que antes era conhecido principalmente entre clientes de alta-costura passou a entrar diariamente na casa de milhões de brasileiros.

O sucesso e as primeiras grandes polêmicas

A popularidade conquistada na televisão também aumentou a exposição de Clodovil. Sua personalidade, que havia ajudado a construir sua fama, passou a produzir conflitos cada vez maiores.

Ele tinha fama de não medir as palavras. Fazia críticas diretas, ironizava personalidades e frequentemente entrava em discussões com entrevistados ou colegas de emissora. Em diferentes momentos, seus comentários provocaram reações públicas, processos judiciais e demissões.

Foto: Paulo Pinto/Estadão/Reprodução


Ao mesmo tempo, havia uma dimensão menos conhecida de sua atuação. Clodovil foi um dos homens homossexuais que conseguiram ocupar espaço relevante na televisão brasileira em uma época de forte preconceito. Sua presença era visível, e ele falava sobre sua própria vida sem esconder completamente sua sexualidade.

Sua posição, porém, estava longe de ser alinhada ao movimento LGBT. Clodovil mantinha uma formação cristã e conservadora e assumia opiniões que frequentemente entravam em choque com militantes da causa. Era contrário ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, embora defendesse a união civil, e criticava a maneira como a Parada do Orgulho Gay era realizada.

Essa combinação de visibilidade e conservadorismo fazia dele uma figura difícil de enquadrar. Para alguns, era um homem que havia aberto espaço para a diversidade na televisão. Para outros, suas declarações e posições eram contraditórias e ofensivas.

A controvérsia acompanharia Clodovil durante praticamente toda a vida pública.

A televisão como principal palco

Depois do TV Mulher, Clodovil passou por diferentes emissoras e ganhou programas próprios. Em 1983, comandou o Programa Clodovil, na TV Bandeirantes. Mais tarde, trabalhou na Rede Manchete, onde apresentou Clodovil Abre o Jogo, e voltou a aparecer em outras emissoras ao longo dos anos.

Na década de 1990, a televisão já havia se tornado sua principal atividade profissional. O trabalho como estilista perdeu espaço, embora ele nunca tenha abandonado completamente a moda.

Em 1998, apresentou Clodovil Soft, na TV Bandeirantes. Em 2001, integrou a equipe do programa Mulheres, da TV Gazeta. Em 2003, passou a comandar A Casa é Sua, na RedeTV!.

Foto: Pulgação/Reprodução

Cada novo programa trazia a mesma fórmula que havia construído sua fama, com comentários sobre comportamento, entrevistas, opiniões fortes e uma capacidade incomum de transformar situações cotidianas em assunto para televisão.

A carreira também foi marcada por rupturas. Clodovil frequentemente entrava em conflito com colegas e emissoras e acabou afastado ou demitido em diferentes momentos.

Em 2004, uma declaração feita na televisão provocou uma das maiores controvérsias de sua carreira. Ele foi processado por uma declaração ofensiva dirigida à vereadora Claudete Alves e posteriormente condenado por danos morais. O episódio se somou a outras declarações consideradas racistas ou preconceituosas que marcaram negativamente sua trajetória pública.

Em 2005, deixou a RedeTV! depois de um conflito envolvendo o programa Pânico na TV. A saída representou mais uma mudança em uma carreira televisiva que já havia passado por praticamente todas as grandes emissoras.

O afastamento da moda e a permanência do artista

Embora a televisão tenha se tornado dominante, a moda nunca desapareceu completamente da vida de Clodovil. Seu nome continuou ligado à criação de roupas e figurinos, e clientes antigas ainda procuravam seu trabalho.

Ao longo dos anos, porém, seu perfil profissional havia mudado. O estilista de ateliê que vestia mulheres da elite passou a ser reconhecido principalmente como uma celebridade televisiva.

Clodovil também continuava interessado em outras manifestações artísticas. Cantava, pintava, atuava e participava de projetos ligados ao teatro. Em 2006, apresentou Eu & Ela, espetáculo autobiográfico que abordava sua trajetória pessoal e sua sexualidade.

A peça representava, de certa forma, uma síntese da vida de um homem que nunca conseguiu separar completamente o personagem público da pessoa privada. Sua imagem, suas roupas, sua maneira de falar e suas opiniões estavam sempre presentes em qualquer atividade que realizasse.

A entrada na política

Em 2006, aos 69 anos, Clodovil decidiu iniciar uma nova fase. Depois de décadas na televisão e na moda, entrou para a política e candidatou-se a deputado federal por São Paulo.

A votação surpreendeu até mesmo aqueles que já conheciam sua popularidade. Clodovil recebeu quase 494 mil votos e tornou-se o terceiro deputado federal mais votado do estado.

Sua eleição mostrou que a fama construída na televisão havia se convertido em força eleitoral. O homem que durante décadas aparecera diariamente nas telas agora ocuparia uma cadeira na Câmara dos Deputados.

Foto: Propaganda Eleitoral Gratuita/
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Em fevereiro de 2007, tomou posse usando um visual que não passava despercebido. Vestia terno em estilo antigo, acompanhado de chapéu e bengala, reforçando a imagem extravagante que havia cultivado durante toda a carreira.

Na Câmara, participou de comissões como as de Direitos Humanos e Minorias, Educação e Cultura e Relações Exteriores e Defesa Nacional.

O deputado que levou seu estilo para Brasília

Clodovil não deixou sua personalidade do lado de fora do Congresso. Seu gabinete se tornou uma extensão de seu gosto pessoal.

Ele promoveu uma reforma no espaço e utilizou elementos de decoração que chamaram atenção. Entre eles estavam um sofá branco com o brasão da República e um retrato seu acompanhado pelos cachorros.

Foto: Agência O Globo/Reprodução

Na política, continuou envolvido em discussões e polêmicas. Também manteve posições conservadoras, inclusive em temas relacionados à comunidade LGBT, apesar de ser reconhecido como um dos primeiros políticos brasileiros assumidamente homossexuais a alcançar grande projeção nacional.

Sua trajetória política foi curta. O mandato que havia começado em 2007 seria interrompido pouco mais de dois anos depois.

Os últimos dias e a morte

Em março de 2009, Clodovil estava em Brasília quando sofreu um acidente vascular cerebral. Ele foi levado ao Hospital Santa Lúcia, onde permaneceu internado.

Na tarde de 17 de março, os médicos confirmaram sua morte cerebral. Clodovil Hernandes tinha 71 anos.

A notícia encerrou uma trajetória que havia atravessado diferentes mundos. O menino adotado no interior paulista havia se transformado em um dos principais nomes da moda brasileira, depois em personalidade de televisão e, por fim, em deputado federal.

Foto: Lula Marques/Folha Imagem/Reprodução

Seu velório foi realizado no Salão Nobre da Assembleia Legislativa de São Paulo. A morte também trouxe discussões sobre seu patrimônio, já que Clodovil não deixou filhos nem herdeiros diretos.

O testamento e o desejo de ajudar meninas carentes

Clodovil havia deixado registrado em testamento o desejo de destinar seu patrimônio à criação de uma fundação beneficente. A intenção era criar uma instituição voltada para meninas carentes e abandonadas.

Depois de sua morte, entretanto, disputas e processos judiciais impediram que o desejo fosse colocado em prática de maneira imediata. Parte de seus bens permaneceu envolvida em questões judiciais durante anos.

Em 2011, foi criado o Instituto Clodovil Hernandes, com o objetivo de preservar e divulgar a memória do artista.

O legado de Clodovil Hernandes

A dificuldade de definir Clodovil talvez seja justamente uma das características mais marcantes de sua história.

Ele foi um dos nomes que ajudaram a construir a moda de ateliê brasileira em uma época em que a produção nacional ainda buscava reconhecimento diante da forte influência europeia. Conquistou prêmios, vestiu artistas e mulheres da alta sociedade e levou seu conhecimento de moda para a televisão.

Ao mesmo tempo, transformou-se em uma personalidade televisiva que falava sobre comportamento para milhões de pessoas. Seu quadro no TV Mulher ampliou o acesso às discussões sobre estilo e mostrou que moda também poderia ser tratada como uma questão de criatividade e expressão pessoal.

Também foi um artista que nunca se limitou a uma única atividade. Atuou no cinema e no teatro, criou figurinos, cantou, apresentou programas e escreveu projetos autobiográficos.

Sua passagem pela política mostrou outra dimensão de sua popularidade. A expressiva votação de 2006 revelou que o público construído ao longo de décadas de televisão também poderia se transformar em capital eleitoral.

Foto: Niels Andreas/AE/Reprodução

Mas o legado de Clodovil não pode ser contado apenas pelos prêmios e conquistas. Suas declarações controversas, os conflitos com colegas, os processos judiciais e suas posições políticas e sociais também fazem parte da história.

Ele foi admirado por sua inteligência e criatividade e criticado por comentários considerados ofensivos e preconceituosos. Em diferentes momentos, defendeu posições que pareciam contraditórias com a própria trajetória pessoal. Essa complexidade ajudou a tornar sua figura ainda mais marcante.

Clodovil viveu em uma época em que a televisão tinha enorme poder de formar personalidades. Soube aproveitar esse espaço como poucos. Conseguiu transformar sua maneira de falar, vestir e se comportar em uma espécie de assinatura pessoal.

Do menino que desenhava vestidos escondido na loja de tecidos do pai adotivo ao estilista premiado, do costureiro de mulheres famosas ao apresentador que conquistou as manhãs da televisão, do artista ao deputado federal, Clodovil percorreu caminhos que dificilmente poderiam ser reunidos em uma única profissão.

Sua vida foi feita de mudanças, conquistas e conflitos. E talvez seja justamente por isso que, anos depois de sua morte, seu nome continue despertando interesse.

Clodovil Hernandes não foi apenas um estilista ou um apresentador. Foi um personagem de seu tempo, alguém que soube transformar a própria personalidade em instrumento de trabalho e que ocupou espaços nos quais, muitas vezes, não era esperado que estivesse.

Morreu em Brasília, em 17 de março de 2009, mas deixou uma trajetória que permanece ligada à história da moda, da televisão, das artes e da política brasileira.

Visita ao túmulo do Clodovil Hernandes


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Referências:

Clodovil Hernandes. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Clodovil_Hernandes>. Acesso em: 30 ago.. 2026.

Morre, aos 71 anos, o deputado Clodovil Hernandes - TV Câmara. Disponível em: <https://www.camara.leg.br/tv/194966-morre-aos-71-anos-o-deputado-clodovil-hernandes/>. Acesso em: 30 ago.. 2026.

CLODOVIL: conheça a história do polêmico estilista e apresentador - FFW. Disponível em: <https://ffw.com.br/materias/clodovil-historia-do-polemico-estilista-apresentador/>. Acesso em: 30 ago.. 2026.

COSTA, Jacqueline. Biografia de Clodovil traz um desfile de polêmicas e histórias reveladoras. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/ela/moda/biografia-de-clodovil-traz-um-desfile-de-polemicas-historias-reveladoras-22126622>. Acesso em: 30 ago.. 2026.

BOSCARIOL, Mariana. Clodovil Hernandes: história do irreverente ícone da alta-costura no Brasil | Fashion Bubbles. Disponível em: <https://www.fashionbubbles.com/historia-da-moda/clodovil-hernandes/>. Acesso em: 30 ago.. 2026.

VIVIANE MOSÉ. Editora Record. Disponível em: <https://www.record.com.br/blogs/news/quinze-anos-sem-clodovil-o-legado-do-polemico-estilista>. Acesso em: 30 ago.. 2026.

Biografia. Disponível em: <https://cloparaosintimos.wordpress.com/historia/>. Acesso em: 30 aug. 2026.

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