Raphael Perroni: imigração, trabalho e a fundação do Corinthians

Quando o Sport Club Corinthians Paulista surgiu, em 1º de setembro de 1910, São Paulo ainda era uma cidade em transformação. O crescimento industrial atraía milhares de imigrantes, principalmente italianos, espanhóis e portugueses, que buscavam melhores condições de vida no Brasil. Nos bairros operários da capital paulista, trabalhadores enfrentavam jornadas cansativas, salários baixos e poucas oportunidades de lazer. Foi justamente nesse cenário que nasceu um clube destinado a se tornar uma das maiores paixões populares do país.

Entre os homens que participaram daquela fundação histórica estava Raphael Perroni, um sapateiro italiano que teve papel decisivo nos primeiros passos do Corinthians. Mais do que um dos fundadores, ele foi também o primeiro capitão, o primeiro técnico e o primeiro zagueiro da história do clube.

Foto: Acervo pessoal da família
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Ao longo da vida, Perroni participou diretamente da construção das bases do Corinthians, acompanhou o crescimento do futebol paulista e ajudou a consolidar a identidade popular que marcaria para sempre a instituição. Sua trajetória mistura imigração, trabalho, futebol de várzea, família e dedicação a um clube que, naquele momento, ainda era apenas o sonho de um grupo de operários.

Origem italiana e chegada ao Brasil

Raphael Perroni nasceu em 1º de abril de 1883, na cidade de Nápoles, no sul da Itália. A região atravessava um período de dificuldades econômicas no final do século XIX, realidade que levou milhares de famílias italianas a deixarem o país em busca de novas oportunidades.

Ainda criança, Raphael veio para o Brasil acompanhado da família. Como muitos imigrantes da época, os Perroni escolheram a cidade de São Paulo para reconstruir a vida. A capital paulista crescia rapidamente impulsionada pela expansão industrial e pelo aumento da população operária.

A família se instalou no bairro do Bom Retiro, região que se tornaria um dos principais centros de convivência entre trabalhadores e imigrantes. O local reunia pequenas fábricas, oficinas, cortiços e campos de várzea onde o futebol começava a ganhar popularidade.

Foi nesse ambiente que Raphael Perroni cresceu. Ainda jovem, aprendeu o ofício de sapateiro, profissão bastante comum entre os imigrantes italianos. Trabalhava durante a semana e, nos momentos de descanso, dedicava-se ao futebol.

O futebol de várzea e o Botafogo do Bom Retiro

Antes da profissionalização do esporte, o futebol paulista era praticado principalmente em campos improvisados espalhados pelos bairros da cidade. Operários e trabalhadores organizavam partidas nos fins de semana, criando equipes que representavam suas comunidades.

Raphael Perroni jogava como zagueiro no Botafogo do Bom Retiro, uma das equipes de várzea mais conhecidas da região. O clube teve importância fundamental na formação dos primeiros jogadores do Corinthians e ajudou a consolidar a cultura futebolística no bairro.

Diversos nomes que mais tarde fariam parte da história corinthiana passaram pelo Botafogo do Bom Retiro. Entre eles estavam Neco, Amílcar Barbuy, Francisco Police, Fulvio Benti, Casemiro González, César Nunes, João Pizzocaro e outros atletas ligados aos primeiros anos do Corinthians.

Perroni era conhecido pela liderança dentro de campo e pelo forte envolvimento com o esporte. Mesmo sem imaginar o tamanho do impacto que teria no futuro, ele já demonstrava características que seriam importantes na criação do novo clube.

A influência do Corinthian Football Club

No início do século XX, o futebol ainda era considerado um esporte elitizado em São Paulo. Os principais clubes da cidade eram frequentados por membros das classes mais altas, enquanto trabalhadores tinham poucas oportunidades de participação.

Em 1910, a excursão do Corinthian Football Club, tradicional equipe amadora da Inglaterra, chamou a atenção da população paulista. O time inglês encantou o público pela qualidade técnica e pelo espírito esportivo demonstrado nas partidas disputadas no Brasil.

As apresentações dos ingleses causaram enorme impacto entre os amantes do futebol em São Paulo. Inspirados pelo sucesso do Corinthian Football Club, Raphael Perroni e seus amigos começaram a discutir a criação de um novo time popular.

O objetivo era simples: fundar um clube formado por trabalhadores, aberto ao povo e capaz de representar os bairros operários da capital.

A fundação do Corinthians

Na noite de 1º de setembro de 1910, um grupo de amigos se reuniu para criar oficialmente o Sport Club Corinthians Paulista.

Os cinco principais fundadores foram Raphael Perroni, Joaquim Ambrósio, Antônio Pereira, Anselmo Correia e Carlos da Silva. Cada um exercia profissões humildes e representava o cotidiano operário da cidade.

Raphael Perroni trabalhava como sapateiro.

Joaquim Ambrósio e Antônio Pereira eram pintores de parede.

Anselmo Correia atuava como cocheiro.

Carlos da Silva trabalhava em uma linha férrea.

Além deles, outras pessoas tiveram participação importante nos primeiros momentos do clube. Miguel Battaglia tornou-se o primeiro presidente da história corinthiana e ficou conhecido pela frase que atravessaria gerações: “O Corinthians vai ser o time do povo e o povo é quem vai fazer o time”.

Também participaram da fundação Alexandre Magnani, Salvador Lapomo, Antonio Vizzone, Emilio Lotito, Antônio Nunes, César Nunes e Jorge Campbell.

Naquele momento, nenhum deles imaginava que o pequeno clube de várzea se transformaria em uma das maiores instituições esportivas do mundo.

Foto: Os fundadores/Imagem da internet
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Os primeiros passos do clube

Após a fundação, o Corinthians precisava organizar sua estrutura. Os fundadores alugaram um terreno na Rua José Paulino, que passou a ser utilizado como campo de treinamento.

Os primeiros treinos reuniam moradores do bairro, curiosos e amigos dos jogadores. Segundo relatos da época, muitos espectadores acompanhavam as atividades com entusiasmo e acreditavam que aquele time teria futuro.

Em pouco tempo, o Corinthians passou a disputar amistosos contra outras equipes de várzea da capital paulista.

O primeiro jogo oficial aconteceu em 10 de setembro de 1910, contra o União da Lapa. A partida terminou com derrota corinthiana por 1 a 0, mas entrou para a história como o nascimento do time dentro de campo.

Raphael Perroni participou da partida como titular da defesa. Atuando como zagueiro ao lado de Atílio, entrou para a história como o primeiro defensor do Corinthians.

Mesmo com o resultado negativo, o clube seguiu crescendo e conquistando espaço entre os trabalhadores paulistanos.

O primeiro capitão da história do Corinthians

Além de fundador e jogador, Raphael Perroni desempenhou papel de liderança nos primeiros anos do Corinthians.

Naquela época, os times ainda não possuíam treinadores profissionais. O capitão era responsável por organizar a equipe, escolher os jogadores e orientar o posicionamento tático.

Por causa disso, Perroni tornou-se simultaneamente o primeiro capitão e o primeiro técnico da história do Corinthians.

Sua liderança era respeitada pelos companheiros, principalmente pela experiência adquirida no futebol de várzea. Ele ajudou a estruturar os primeiros jogos da equipe e participou da formação inicial do elenco.

Embora os registros oficiais apontem apenas três partidas disputadas por Raphael Perroni como jogador, muitos historiadores acreditam que ele tenha participado de outros confrontos não documentados.

Os arquivos esportivos do início do século XX eram incompletos, e várias súmulas acabaram perdidas ao longo das décadas.

A participação como treinador

Depois dos primeiros jogos, Raphael Perroni continuou colaborando com o Corinthians como treinador.

Ele comandou a equipe entre 1910 e 1911, período em que o clube ainda disputava partidas amadoras e buscava espaço no cenário esportivo paulista.

Os números históricos variam conforme as fontes consultadas, mas estima-se que Perroni tenha participado de pelo menos 16 partidas como técnico.

Nesse período, ajudou a consolidar o estilo competitivo e aguerrido que começava a marcar a identidade corinthiana.

Mesmo sem estrutura profissional, o Corinthians crescia rapidamente graças ao envolvimento de seus jogadores, dirigentes e torcedores.

A relação da família Perroni com o Corinthians

A ligação de Raphael Perroni com o Corinthians ultrapassava os gramados.

Sua esposa, Antônia Perroni, também entrou para a história do clube.

Em 1913, quando o Corinthians precisava apresentar um uniforme adequado para ingressar na Liga Paulista, foi Antônia quem bordou nas camisas o primeiro símbolo do time: o lendário “CP”, abreviação de Corinthians Paulista.

Foto: Antônia Perroni/Imagem da Internet
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O gesto tornou-se um dos episódios mais simbólicos dos primeiros anos corinthianos e representa a participação das famílias operárias na construção da identidade do clube.

O casal teve filhos e manteve forte relação com o Corinthians ao longo da vida.

A filha mais velha, Amélia Perroni, tornou-se conselheira do clube anos depois, reforçando a presença da família na história corinthiana.

O Corinthians popular e operário

O Corinthians nasceu diferente da maioria dos clubes paulistas da época.

Enquanto outras equipes tinham origem ligada às elites econômicas, o clube foi criado por trabalhadores comuns.

Essa característica aproximou rapidamente o time da população mais humilde da cidade.

Raphael Perroni representava exatamente esse perfil.

Era um imigrante trabalhador, apaixonado por futebol e profundamente conectado à realidade dos bairros operários.

Sua trajetória ajudou a construir a imagem do Corinthians como clube popular, característica que permanece até hoje.

Com o passar dos anos, a equipe ganhou milhares de torcedores e transformou-se em símbolo de identificação para diferentes gerações de trabalhadores paulistanos.

A mudança para Jacareí

Na década de 1940, já distante dos tempos de jogador e dirigente, Raphael Perroni mudou-se para Jacareí, cidade localizada no Vale do Paraíba, interior de São Paulo.

No município, passou a trabalhar como motorista em uma instituição de saúde responsável pelo atendimento de pacientes com hanseníase.

Mesmo vivendo longe da capital, manteve o carinho pelo Corinthians e acompanhava o crescimento do clube fundado décadas antes.

Em Jacareí, construiu uma nova etapa de sua vida familiar.

Ao longo de seus dois casamentos, teve dez filhos, sendo três da primeira esposa e sete da segunda.

Familiares relatam que Perroni sempre demonstrou orgulho pela participação na criação do Corinthians.

Os últimos anos de vida

Apesar de ter participado de um dos acontecimentos mais importantes da história do futebol brasileiro, Raphael Perroni levou uma vida simples até o fim.

Nunca buscou reconhecimento financeiro nem tentou transformar sua participação na fundação do Corinthians em benefício pessoal. Diferente de muitos personagens históricos do esporte, viveu longe da fama e manteve a rotina humilde que o acompanhou desde a juventude.

Em Jacareí, dedicou-se ao trabalho como motorista em uma instituição de saúde que atendia pacientes com hanseníase. A função exigia responsabilidade e sensibilidade, qualidades frequentemente associadas à personalidade tranquila e solidária de Perroni. Mesmo distante da capital paulista, continuava acompanhando o crescimento do Corinthians e demonstrava orgulho ao ver o clube ganhar cada vez mais espaço no futebol brasileiro.

Familiares e conhecidos relatavam que Raphael gostava de recordar os primeiros tempos do Corinthians, quando os fundadores ainda improvisavam campos, uniformes e estruturas para manter o time ativo. Ele se emocionava ao perceber que aquele pequeno clube criado por operários havia se tornado uma paixão popular.

Relatos históricos apontam ainda que, pouco antes de morrer, vendeu parte de seus bens e realizou doações ao Corinthians. O gesto reforça o forte vínculo emocional que mantinha com o clube mesmo quase cinquenta anos após a fundação.

Raphael Perroni morreu em 29 de agosto de 1959, aos 76 anos, na cidade de Jacareí, no interior de São Paulo. Sua morte encerrou a trajetória de um dos personagens mais importantes da origem corinthiana, mas seu nome permaneceu eternizado na memória do clube e de sua torcida.

Décadas depois, Perroni segue reconhecido como símbolo das raízes populares do Corinthians. Sua história representa o espírito dos trabalhadores que ajudaram a construir não apenas um time de futebol, mas uma instituição que se transformaria em parte da identidade cultural de milhões de brasileiros.

A importância histórica para o Corinthians

Dentro da memória corinthiana, Raphael Perroni ocupa posição de destaque.

Seu nome aparece entre os cinco principais fundadores do clube e sua carteirinha de sócio-fundador recebeu o número 3.

Foto: Imagem da Internet/Reprodução

Ao lado de Joaquim Ambrósio, Antônio Pereira, Anselmo Correia e Carlos da Silva, ajudou a transformar uma ideia simples em uma instituição centenária.

Visita ao Túmulo de Raphael Perrone


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Referências:

Perrone, ex-jogador do Corinthians. Disponível em: <https://www.meutimao.com.br/jogador-do-corinthians/rafael-perrone>. Acesso em: 5 maio. 2026.

‌BEPPLER, Larissa. Em 1o de abril de 1883 nascia Rafael Perrone, fundador e primeiro capitão do Corinthians. Central do Timão - Confira as últimas notícias do dia do Corinthians. Disponível em: <https://centraldotimao.com.br/noticias/em-1o-de-abril-de-1883-nascia-rafael-perrone-fundador-e-primeiro-capitao-do-corinthians/>. Acesso em: 5 may. 2026

DOS, C. futebolista brasileiro. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Rafael_Perrone>. Acesso em: 5 maio. 2026.

Ídolos - Rafael Perrone - Todo Poderoso Timão. Disponível em: <https://todopoderosotimao.com.br/p_idolos/rafaelperrone.php>. Acesso em: 5 maio. 2026.

‌FLAVIA. O fundador - Raphael Perrone, o primeiro corinthiano. Disponível em: <https://www.meutimao.com.br/forum-do-corinthians/1417106/o-fundador-raphael-perrone-o-primeiro-corinthiano>. Acesso em: 5 maio. 2026.

‌CORINTHIANS. Antônia Perrone, a primeira corinthiana. Disponível em: <https://medium.com/@Corinthians/ant%C3%B4nia-perrone-a-primeira-corinthiana-c0ac5b6d0625>. Acesso em: 5 maio. 2026.

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